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quarta-feira, 25 de março de 2026

Tá nas bases

Hoje sai de casa com muitas missões, muitas burocracias a resolver e umas coisas para comprar. Tratei de vestir uma roupa coringa e confortável (aquele macacão verde lindo!), arrumei o cabelo e fiz uma maquiagem bem básica. Olhei no espelho e aprovei o resultado, lembrei da última vez que usei esse macacão e o sorriso sumiu por alguns microssegundos.

Enfim, segui com minhas coisinhas e enfim chegou o momento das compras. Gosto muito da sensação de gastar meu suado dinheiro. Não por simplesmente gastar, mas por ter condições de comprar o que quero/preciso na hora da minha vontade/necessidade. Entrei em uma loja, bem serelepe, com óculos escuros, fone no ouvido ouvindo Metal contra as nuvens, da Legião Urbana e bolsa pendurada até que uma (des)querida confundiu-me com uma funcionária (queria saber onde tinha alguma coisa). Mesmo eu estando de óculos, bolsa e com uma roupa que nada tinha a ver com o uniforme da loja. 

Sabe o nome disso? Racismo estrutural. Não foi a primeira, nem a última. Mais um “caso isolado”.

O racismo estrutural é uma forma de descriminação enraizada na sociedade que normaliza desigualdades raciais através de práticas políticas, econômicas, jurídicas e sociais. Ele funciona como a engrenagem base da organização social, favorecendo um grupo racial e prejudicando outros, sendo um fenômeno coletivo e sistêmico, não apenas individual. Assim disse o Google. Na prática, isso diz que corpos negros são vistos como subservientes com muita naturalidade. A tal mulher provavelmente não pensou antes de perguntar pelo item que buscava no impacto da frase, não pensou em porquê achou que eu, com aquela skin, poderia ser uma funcionaria disponível a servi-la. 

Eu já passei por isso outras vezes, nem teria como contar quantas, mas essa foi a primeira vez que eu respondi. Quando ela perguntou eu estava em movimento e não parei para responder, mas disse "não, estou com bolsa e de óculos, tenho cara de está trabalhando aqui?" não olhei para trás nem esperei resposta, mas espero ter devolvido o desconforto.

Espero que da próxima vez (por que sempre tem a próxima) eu consiga responder melhor. 

Espero que demore mais até a próxima vez.

Espero que meus filhos não passem por isso (ou sejam melhores de resposta do que eu).


"(...) vi meu povo se apavorar
E às vezes eu sinto que nada que eu tente fazer vai mudar
Autoestima é tipo confiança, só se quebra uma vez
Tô juntando os cacos (...)
Sou antigo na arte de nascer das cinza
Tanto quanto um bom motorista é na arte de fazer baliza
Eu tô na arte de fazer"
Corra - Djonga 


Com a fé de quem olha do banco a cena
Do gol que nós mais precisava na trave
A felicidade do branco é plena
A pé, trilha em brasa e barranco, que pena
Se até pra sonhar tem entrave
A felicidade do branco é plena
A felicidade do preto é quase

Olhei no espelho, Ícaro me encarou
Cuidado, não voa tão perto do Sol
Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei
O abutre quer te ver de algema pra dizer: Ó, num falei?!

No fim das conta é tudo Ismália, Ismália
Quis tocar o céu, mas terminou no chão

Ela quis ser chamada de morena
Que isso camufla o abismo entre si e a humanidade plena
A raiva insufla, pensa nesse esquema
A ideia imunda, tudo inunda
A dor profunda é que todo mundo é meu tema
Paisinho de bosta, a mídia gosta
Deixou a falha e quer medalha de quem corre com fratura exposta
Apunhalado pelas costa
Esquartejado pelo imposto imposta
E como analgésico nós posta que
Um dia vai tá nos conforme
Que um diploma é uma alforria
Minha cor não é um uniforme
Hashtags PretoNoTopo, bravo!
80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo
Quem disparou usava farda (mais uma vez)
Quem te acusou, nem lá num tava (banda de espírito de porco)
Porque um corpo preto morto é tipo os hit das parada
Todo mundo vê, mas essa porra não diz nada

Olhei no espelho, Ícaro me encarou
Cuidado, não voa tão perto do Sol
Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei
O abutre quer te ver drogado pra dizer: Ó, num falei?!


No fim das conta é tudo Ismália, Ismália
Quis tocar o céu, mas terminou no chão
Ter pele escura é ser Ismália, Ismália
Quis tocar o céu, mas terminou no chão
(Terminou no chão)

Primeiro, sequestra eles, rouba eles, mente sobre eles
Nega o Deus deles, ofende, separa eles
Se algum sonho ousa correr, cê para ele
E manda eles debater com a bala que vara eles, mano
Infelizmente onde se sente o Sol mais quente
O lacre ainda tá presente só no caixão dos adolescente
Quis ser estrela e virou medalha num boçal
Que coincidentemente tem a cor que matou seu ancestral
Um primeiro salário
Duas fardas policiais
Três no banco traseiro
Da cor dos quatro Racionais
Cinco vida interrompida
Moleques de ouro e bronze
Tiros e tiros e tiros
Os menino levou 111 (Ismália)
Quem disparou usava farda (meu crime é minha cor)
Quem te acusou nem lá num tava (eu sou um não lugar)
É a desunião dos preto, junto à visão sagaz
De quem tem tudo, menos cor, onde a cor importa demais

"Quando Ismália enlouqueceu
Pôs-se na torre a sonhar
Viu uma Lua no céu
Viu outra Lua no mar
No sonho em que se perdeu
Banhou-se toda em luar
Queria subir ao céu
Queria descer ao mar
E, num desvario seu
Na torre, pôs-se a cantar
Estava perto do céu
Estava longe do mar
E, como um anjo
Pendeu as asas para voar 
Queria a Lua do céu
Queria a Lua do mar
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par
Sua alma subiu ao céu
Seu corpo desceu ao mar"

Olhei no espelho, Ícaro me encarou
Cuidado, não voa tão perto do Sol
Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei
O abutre quer te ver no lixo pra dizer: Ó, num falei?!

No fim das conta é tudo Ismália, Ismália
Quis tocar o céu, mas terminou no chão
Ter pele escura é ser Ismália, Ismália


Ismália - Emicida

segunda-feira, 23 de março de 2026

Cores

Dia cheio. Acordar cedo, espalhar currículos. Após alguns meses do fim do curso ela precisava de um emprego, As contas já se acumulavam e se não houvesse um saldo positivo em sua conta teria que devolver o apartamento e voltar para a casa dos pais. Era o fim, atestado de derrota. 
Vestiu sua roupa mais social e saiu. Não que tenha sido difícil, afinal ela só tem um par de roupas desse tipo, na maior parte do tempo prefere roupas alternativas e confortáveis. Passou a manhã inteira entregando suas qualificações digitadas e devidamente impressas para pessoas de setores burocráticos que se quer sorriam, pessoas automáticas que poderiam parecer qualquer coisa, menos pessoas.
Ao fim do dia estava suada, cansada e com fome, mas ainda conseguiu sorrir ao lembrar das histórias que uma senhorinha dividiu com ela no ônibus. Não sabia porquê, mas desconhecidos adoravam conversar com ela, como se precisassem falar com alguém que não as julgue, alguém de fora de suas vidas. Como uma boa ouvinte e observadora do comportamento humanos, guardava seus fones e dava uma de psicóloga.
Ainda rindo da briga que a senhora contou que teve com uma vendedora, entrou na padaria e na fila do queijo notou alguém rindo também em sua direção. Ficou imediatamente sem graça por aquele estranho ter notado sua cara de (provavelmente) lerda em meio a um devaneio. Mais que isso, o dito cujo era o novo vizinho dela e nunca tinham se falado. Ele quebrou o gelo com o bom e velho "Oi" acompanhado de um sorriso devastador "será que ele usou aparelho? Aposto que fez clareamento", pensou ela. Ele se ofereceu para levar suas sacolas e o que mais ela poderia fazer se não aceitar estando tão cansada e de saltos? 

(Escrito em 18/06/2018 e ficou aqui esquecido, provavelmente tinha uma continuação que nunca veio. Vou publicar para que não seja esquecido de novo. Quem quiser dar ideia de continuação, comenta comigo!)

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Caminho das pedras

- Dandara! 
Estava distraída lendo sob uma sombra quando tomou um susto com alguém gritando seu nome. Soou estanho porque geralmente a chamam pro Dan ou algum outro apelido carinhoso. Passava das 15h, uma hora de atraso e ela já começava a sentir sede, lembrando que esqueceu sua garrafa inseparável. Sua cabeça estava longe. O chamado era de seu namorado e a mãe dele que já haviam chegado, assim como o ônibus que precisavam pegar. Fechou o livro apressada e correu para subir no coletivo o qual estava um pouco cheio. Apressou-se a sentar no final do ônibus em um dos poucos assentos vagos, deixando os outros dois companheiros de viagem mais à frente. 
Abriu o livro mas permitiu-se vagar em pensamentos. 
Voltou à noite anterior, a discussão, os motivos e finalmente seu lugar ali naquele ônibus. Não acreditava que estava prestes a fazer isso, justamente algo que sempre disse que não faria pelo desconforto que a ideia lhe causara. Na noite anterior mal dormiu decidindo se iria mesmo aceitar convite tão sem jeito quanto esse. Acordou com enxaqueca, que a muito não tinha, e com a garganta irritada (somatização, querida? Acho que sim). De todo modo trabalhou, fez o que tinha que fazer e agora estava ali, sem jeito. 
Ainda assim pensava se deveria mesmo ir, mesmo estando no ônibus era não era obrigada a seguir, certo? Lembrou da conversa com sua melhor amiga, da conversa cautelosa porém negativa com sua mãe e disse que iria sim seguir, e só então decidiria se isso é aceitável ou se será a única vez. Lembrou de seu irmão que sempre precisava sentir na pele quando tinha uma decisão importante a tomar, riu leve com a lembrança e notou que ali estava ela seguindo para sua decisão. Tirou um pouco os olhos do livro e observou seu reflexo no vidro da janela: cabelo armado com cachos modelados e curtos, entregando que lavou as madeixas pela manhã, óculos escuro e batom cor de vinho numa boca pequena e desenhada pela pintura. Se sua mãe a visse faria piada com o biquinho instalado ali, entregando que estava irritada, desde criança nunca soube disfarçar suas expressões faciais.
O namorado se aproximou cauteloso, como se conseguisse ler os pensamentos dela e perguntou se estava tudo bem. O olhar lançado não condizia com as palavras - "claro, tudo bem" - que saíram de sua boca e ambos sabiam que não estava nada bem.
O rosto dele tinha uma barba por fazer, camisa vermelha e um olhar preocupado, estava e conflito: Queria ter aquela mulher com ele, a apoiando enfrentando o desconforto que ele também sente com toda a situação não planejada; ao mesmo tempo era consciente que ela possivelmente não aceitaria viver assim, pelo rosto dela, ele temia perdê-la em breve e não sabia o que fazer... Sentia-se triste também com a resistência dela e a expressão de poucos amigos por esta indo com ele e sua mãe. Quantos sentimentos cabem simultaneamente num olhar?
A viagem foi mais rápida do que o esperado, ao descerem ele foi relatando os pontos de referência e ensinando um caminho que ela pouco se importava em aprender. Logo ela se viu em frente a casa da ex-esposa de seu namorado e a garotinha loira de vestido rosa sai correndo na direção deles.
-Papai!

Continua...

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Estiagem

Faz mais tempo do que eu gostaria de admitir, eu sei.
É amargo dizer mas, após os últimos acontecimentos, achei que escrever seria uma das coisas que amo e que eu não faria mais. Meu lado criativo se fechou e a fonte secou, mesmo tendo muito o que gritar, não conseguia. Nem torto, nem nada, nada mais saia de mim. Era triste sentir tudo acumulando sem um escape decente, com isso eu tive alguns surtos de tristeza profunda, euforia, muitas ideias soltas de uma vez só e nada de constância. Não me fazia bem, eu sentia e doía muito não ter a tão fiel companhia das palavras, minhas ou de outros autores que eu gostava de ler.
As vezes eu achava que me faltava fé, que as coisas precisavam de tempo para se ajustar e eu era impaciente, mas ai eu lembrava que já passei por tantas outras situações, piores até, e sempre pude contar com um bom livro, caderno e caneta. Outras vezes pensei que exigi muito de mim mesma ao dedicar por tanto tempo seguido à produção científica. Enfim, não saberei dizer tão cedo onde esta o X da questão, o fato é: nos últimos dias coisas que eram comuns em outros tempos ressurgiram, trazendo a sensação de algo inédito e me enchendo de uma esperança que eu jã nem lembrava. 
Eu nunca deixei de amar livros e por isso mesmo sempre passeava nas livrarias, admirava nas prateleiras alguns títulos e levava para casa na esperança de despertar a leitura de novo. Isso me rendeu uma estante cheia de livros não lidos em casa. Na última semana, no entanto, despretensiosamente foi avassalada por um livro nas primeiras linhas. Não me contive e levei para casa, em menos de duas horas, devorei. Devorei como a muito não fazia, como se estivesse num deserto e tivesse encontrado um incrível oásis. Era como se tivesse faminta por cada verbo, cada oração, cada jogo de palavras. E estava mesmo, mas só me dei conta do tamanho quando terminei o livro e vi que não lembrava da última vez que tinha lido um livro de uma vez e o quanto eu valorizava leituras instigantes, que me prendiam e me davam muitas ideias e mostravam que eu poderia pesquisar mais sobre alguns temas que traziam. 
Eu conhecia aquela onda quente. Explosão. Processo criativo.
Queria gritar pro mundo todo: Senhoras e senhores, voltei!, mas não era bem assim, não podia me antecipar dessa forma, afinal poderia ser só euforia. 
Peguei aquele livro que desde o ano passado havia iniciado leitura e não terminara. Não era um livro ruim: história envolvente, personagens cativantes, temática central atrativa, descrições detalhadas. Era tudo que eu apreciava em um livro. Ele era bom e eu que não estava tão bem assim. Aos poucos fui lendo e esta noite terminei. Nas últimas páginas eu estava tão emocionada por enfim estar terminando que chorei. Já chorei com outros livros mas dessa vez era diferente, não era pela história mas sim por está conseguindo virar a página, literalmente, desse meu período que apelidei "carinhosamente" de  Idade Média. Muitas coisas ficaram pelo caminho do ano passado para cá, muitas coisas inacabadas, esse livro era uma delas, a representação da minha leitura inexistente. O fim de um dos meus hobbies, uma das minhas válvulas de escape inoperante e aparentemente obsoleta, uma lembrança boa. Concluir esta leitura foi importante e marcante para mim, após tanto tempo, eu precisava disso. Chorei com o coração aquecido, por sentir que aos poucos as coisas vão se ajustando, um passinho por vez, sem afobação. Esse texto veio junto com o sentimento que me encheu, do ser capaz de. Capaz de terminar, capaz de escrever. Capaz. 
Meu bem e amigas, obrigada por sempre me incentivarem mesmo que eu resmungasse que não podia mais. Obrigada por acreditarem mais em mim do que eu mesma. Obrigada por dividirem a fé de vocês comigo quando estou sem.

Esse provavelmente não é o meu melhor texto, mas certamente é um dos importantes. Marca o fim de uma estiagem que eu nunca tinha passado no quesito Escrever. Vou chover ainda, preparar essa terra com paciência e só então florir. Com calma, em paz. 

domingo, 9 de dezembro de 2018

O redator - Zimbra

Eu vi você pulando a minha página
Talvez você só queira ler depois
Não fiz tanta questão de ser direto assim
Talvez você perceba isso depois
Eu sempre fui tratado muito bem
Nos meios dessas linhas que eu já fiz
Seguiam pelas coisas que eu falei
Mas a metade mesmo diz
Que é tudo versificação
De alguma história que eu refiz
Me lembro de ter que explicar
Como é que essas coisas funcionam
Evito de ter que pensar
Que as melhores frases se foram
E não voltarão pro lugar
Pro mesmo rascunho que entrega
Milhares das informações
Que nem todo mundo
Pensei em anotar tudo que você diz
Daria uma bela matéria no jornal
Na parte de entretenimento ou coisa assim
Já que você não chega até o final
Me lembro de ter que explicar
Como é que essas coisas funcionam
Evito de ter que pensar
Que as melhores frases se foram
E não voltarão pro lugar
Pro mesmo rascunho que entrega
Milhares das informações
Que nem todo mundo se apega
Tá tudo bem com você?
Faz tempo que você não escreve
Eu sinto tanta falta de ler
Seus textos fabricados em série
Escreva alguma coisa, por favor, meu bem
E lembra de assinar no fim da folha

A primeira vez com ele

"Já faz um tempo mas eu gosto de lembrar" 

Depois que transei primeira vez, esse trecho de "Não é sério", do CBJr., nunca mais foi o mesmo para mim, pois me remete àquela noite que eu gosto de lembrar. Aquela...
Estávamos junto há um tempo e eu já o queria mais para além dos beijos. Ele, queria bem mais que eu, porém era paciente e compreensivo, respeitando meu tempo. Eu pensava vez ou outra como seria, o quanto eu queria e o quanto poderia ser bom apesar de todas avisarem que era ruim a primeira vez, porque doía, contando suas experiências. Sim, não era só a primeira vez com ele, era também a primeira vez na vida!
Apesar de toda pressão que há sobre esse assunto tão polêmico e que deveria ser pessoal, eu estava tranquila. Ciente da possível dor eu não me "traumatizaria", nem iria com receios, "moça, só relaxa e..." vocês sabem.
Lembro bem desse dia: Eu coloquei aquele vestido canelado com listras que me veste bem apesar de estarem dispostas na horizontal (todo mundo sabe que engorda, mas eu estava plena mesmo assim), um sapato confortável, fiz uma maquiagem leve e amadora (ler-se batom e rímel) e arrumei a mochila: Nela estavam alguns itens de trabalho para realizar o atendimento agendado para o fim de tarde e o necessário para dormir fora, afinal, seria noite das meninas e assim que acabasse de trabalhar ia para a casa de uma delas para uma super noite de pizza, vinho, música, conversas e gargalhadas. E assim aconteceu.
A pizza estava ma-ra-vi-lho-sa! Para quem tinha trabalhado a tarde toda e pode desfrutar de uma bela massa com bordas recheadas... não tinha preço! A conversa, nem se fala, sempre é uma delícia estar com elas que tanto me fazem bem. O riso é sempre certo nos nossos encontros, mesmo que comece com frustrações o desabafos. Ah e claro, o vinho sempre será uma ótima pedida para nossos encontrinhos, mesmo que uma delas não beba.
Não lembro se foram uma ou duas garrafas mas sei que postei fotos, vídeos, em todas as redes sociais (coisa que eu nem costumava fazer, vale lembrar) fiz chamadas de vídeo... tudo que atestasse que eu estava ali, para poder fugir em paz, caso eu assim decidisse fazer.
Aproximando-se da meia noite alguém falou em ir para uma balada, acho que foi o irmão da amiga-anfitriã da noite. A possível balada seria numa região mais central da cidade, um tanto longe de onde estávamos. O povo começou a se animar, menos uma que teria aula no dia seguinte. Ai eu pensei "Que tal hoje?" Sim, eu havia decido e ele obviamente não acreditava nenhum pouco que eu iria para lá. A anfitriã e seu irmão já estavam prontos para pedir o uber, a moça da aula decidiu que ficaria lá mesmo para ir cedinho para a aula, dispensando a balada e eu disse que ia para a casa dele. Todo mundo ficou sem entender, porque eu disse do nada. O irmão da amiga ficou dizendo coisas do tipo "Que namorada massa, indo uma hora dessas pra casa do cara" e as meninas um tanto chocadas pois sabiam que eu nunca tinha feito isso e estava muito tranquila e decidia pelo mesmo motivo. Por volta das 2h pedir um uber para minha amiga e seu irmão irem para a balada e a amiga que ficou em casa pediu um uber para eu ir para a casa do sortudo da noite (nada de deixar rastros da fuga. Garota esperta.). Entrei no  uber e segui conversando normalmente, não me importando com os fatos que geralmente me preocupariam: (1) estar num carro sozinha com um desconhecido, (2) estar num carro sozinha com um desconhecido na madrugada e (3) estar num carro sozinha com um desconhecido na madrugada indo para um lugar que eu nunca fui. É possível que o álcool tenha dado uma dosezinha de coragem? Sim, é possível mas, até aquele momento eu não estava arrependida.
O motorista era um cara romântico e foi o caminho todo me contando a sua história de amor com sua esposa, desaprovada por seus pais. Mostrou-me fotos do filhinho deles e foi muito gentil por toda a viagem, que era um pouco longa mesmo sem trânsito e passando por todos os sinais. Deu até para apreciar a cidade: tranquila, iluminada na maioria dos trechos que passamos, pude notar algumas placas e fachadas que nunca tinha visto até então, mesmo já tendo passado por boa parte do caminho, coisas da nossa vida corrida. Ao me aproximar do destino final nos perdemos e isso me deixou um tanto preocupada, afinal, eu não estava num bairro tranquilo. O sortudo estava no meio da rua, aposto de incrédulo e assim facilitou o término da viagem. Cheguei, é isso.
Ele pegou minha mochila e entramos. Não dava para ver muitos detalhes mas uma espécie de vila, com alguns carros estacionados ali onde parecia uma ruazinha sem saída. Subimos vários lances de escada até chegar na varanda dele, que era bem arejada. Tinha uma lavanderia e um lugar para armar rede. Parecia ser um espaço bom para churrasco e reuniões reservadas. A porta era de vidro e havia uma pequena antessala. Subindo um degrau tinha-se a cozinha e depois, a suite. Coloquei minha mochila numa mesinha, avisei as minhas cúmplices que havia chegado bem e fui ao banheiro lavar as mãos para tirar as lentes. Feito isso, ele não perdeu tempo e começou a me beijar. Quando vi já estava deitada, e enquanto ele subia em mim, aquele calor subia junto. Meu vestido, pobre vestido, já estava amarrotado e eu só pensava em como ficaria mais confortável sem ele. Concordamos então o tirei. Enquanto tirava pude notar rapidamente que havia uma tevê ligada e que tinha um filme passando, perguntei qual era e comecei a rir ao notar que estava em outro idioma, mandarim  se não me falha a memória. Não lembro qual filme era mas acho que gostaria de assití-lo só para saber se era melhor do que o que estávamos fazendo ali. Duvido.
Ok, então, depois de nos livrarmos das roupas tão desnecessárias ali, ele me mostrou o quanto a boca dele pode ser boa quando usada para outras coisas além de falar e beijar minha boca. Ganhei beijos no pescoço, costas, barriga, pernas... Onde você imaginar e tudo era bom. Vez ou outra ele perguntava porque eu estava rindo, ora era porque estava bom e outras vezes por cosquinha (igualmente bom), eu estava feliz ali. Chegada a temida hora eu comprovei: sim, dói, mas nada de desistir. Eu fui lá para isso mesmo, certo? Pois bem, mostre que você é decida, garota! 
Ele tentava ser delicado e dizia coisa que me acalmassem mas eu sempre fui desbocada e dizia "C@r@lho, isso dói" e ele, na tentativa de amenizar minha tensão todo sem graça disse "tá, mas é um" eu, com toda minha delicadeza meio que gritei que, iria dar um "consolo" para ele de presente para ele saber como doía uma coisa dessas num lugar inexplorado. Ele teve crise de riso, eu tive crise de riso e a gente quase parou de tanto rir. Mas não paramos. Confesso que fiquei surpresa com o tanto de sonoplastia que proporcionei e com o volume também (por sorte não eram meus vizinhos).
Rimos a noite toda. Estava alvorecendo quando fomos tomar banho juntos para poder dormir. Acordei poucas horas depois, dentro do abraço dele, numa conchinha. Não imaginei que dormir junto seria bom, mesmo me mexendo muito consegui dormir bem (por sorte foi só o começo de nossas conchinhas).
Ao amanhecer, comemos alguma coisa e ele foi me deixar na parada. Peguei o ônibus errado, para variar e inventei uma história para justificar minha decida numa parada nada a ver. Cheguei em casa moída, da caminhada e da noite. Dormi logo e acordei com ele já na porta lá de casa, fingindo estar me vendo só agora. Cara de pau, não sei quem de nós dois era o melhor ator.
Sim, mesmo sendo a primeira vez, eu aproveitei a viagem, "cheguei lá" e depois disso as coisas só melhoraram, a cada dia que passa a gente descobre algo novo, testa e se diverte. Hoje em dia não é só transa, também tem amorzinho, sexo selvagem, sexo acrobático, para fazer as pazes... Podemos ter nossas brigas e divergências mas, nesse aspecto... sempre nos demos bem. E é bom lembrar de como tudo começou: foi um momento louco e de muita coragem por me aventurar noite adentro saindo de outra ponta da cidade, de muito riso, companheirismo e amor. Foi uma coisa beeeem aquariana? Foi.
Foi tão leve quando eu gostaria que fosse e, mesmo que terminemos algum dia, o que espero que não aconteça, eu sempre terei esse sorrisão no rosto quando lembrar da primeira vez com ele.



Esse é um texto da série que faço com a Liz, onde escrevemos o mesmo tema sob a perspectiva de cada uma. Para ler o texto da dela clica aqui.

sábado, 20 de outubro de 2018

A Raiva que deu

Estávamos deitados numa rede naquela sala pequena pós almoço de domingo. Não dava para nos mexer muito pois minha cabeça poderia bater na estante, as costas dele no sofá... então ficamos quietinhos, aguardando o tão esperado momento.
A semana toda, duas semanas da verdade, caiu de mim uma venda que eu mesma havia posto e, ao me dar conta disso não me senti confortável com tudo como estava. As coisas precisavam mudar e tinha quer ser logo se não eu mesma me mudaria. Fiquei dias e dias pensando na vida, distante, estranha. Ele estava com muito receio, prevendo o fim assim como eu, que tentava ao máximo encontrar um momento certo, as palavras certas, e já era domingo de tarde e nada havia sido dito. Em poucas horas eu viajaria e nada mudaria.
Ele me beijou e depois de um tempinho, eu cedi ao beijo e foi bom mas começou e me subir uma... uma raiva, e eu comecei a bater nele com uma almofada (e não só ficou por ai, boatos que teve até paus e pedras) por me fazer gostar tanto mesmo sendo tão diferentes um do outro. Ele, por sua vez não estava entendendo nada e só conseguia rir, porque eu estava engraçada (já ouvi isso outras vezes, que quando eu estou irritada fico engraçada pois começo a falar alto, gesticular demais...)
Na verdade, minha raiva maior era de mim mesmo, por estar numa situação desconfortável e não conseguir mudar ou sair. Não gosto de me sentir vulnerável e gostar dele faz isso comigo, me deixa de uma situação que eu não aceitaria de forma alguma em outros tempos, uma eu de uns anos atrás. E o que fiz com essa raiva? Dissipou mas a venda caída me deixa a cada dia um pouco mais desgostosa com tudo isso e as possibilidades de futuro com tamanhas diferenças.

sábado, 25 de agosto de 2018

A luz que o outro traz

Acordei já me sentido cansada, assim como ontem, anteontem, semana passada... Os dias não têm sido como eu imaginava. As vezes me pergunto se estaria me sentindo assim se tivesse feito outras escolhas, sei lá, nem vale muito a pena né?! É aqui onde estou agora.
Saio cedinho e as alegrias do dia ainda estão em ajudar os outros, ainda bem que posso, mesmo que o tanto que eu faça não seja reconhecido e eu seja tratada com mais desdém que uma aluna de primeiro período e não como a profissional que me esforço para ser.
Fiquei feliz que esse dia chegou, cheio de atividades externas, o que me proporciona sair daquele ambiente que me desanima. Mesmo tento um turno lá pelo menos eu estaria bem ocupada dessa vez.
Cheguei para meu atendimento no horário habitual, organizei minhas coisas, vesti o jaleco e esperei os prontuários chegarem. Enquanto não vinham, observei a sala. Um espaço de mais ou menos 3m², teto alto, paredes pintadas de amarelo com várias partes caindo, deixando transparecer o branco de uma tinta anterior e cheias de infiltrações. A iluminação também não é muito boa e há um cheiro de mofo e insetos quando ligo o ar condicionado (antigo, barulhento e que pinga dentro da sala), o que deixa o ambiente pouco confortável até mesmo para mim que mal noto o lugar hoje me dia. Acho que me habituei. 
As cadeiras são antigas, de metal, pintadas em um tom marfim e se arrastadas fazem um barulho bem irritante. A mesa á minha frente tem um tampo de granito cinza e é instável, de modo que se eu não me apoiar corretamente quando for escrever ela fica pendendo para um lado e para outro. Por mais que eu soubesse (ou achasse que soubesse) da realidade da atenção básica no país, não imaginava que estaria numa lugar assim. Dei mais uma rápida olhada, suspirei e decidi que já era hora de começar.
O primeiro caso foi uma senhorinha fofa, com cara de vó que faz bolo e crochê pros netos, sabe?! A consulta foi proveitosa pois vi nela vontade de mudar e permissão para que eu possa ajudar e isso vai me dando doses de alegria, por saber que estamos plantando uma boa sementinha ali, que o tanto que estudei e estudo vai servir para dar qualidade de vida a alguém que pouco conheço mas me importo.
Parcialmente revigorada, chamo o segundo paciente do dia, e ai vem ele. Mal sabia o que me esperava: um rapaz educado, inteligente, de 6 anos, acompanhado por sua mãe. 
Ele usava um óculos com armação estilosa, tipo de nerd e estava todo arrumadinho. Uma graça. Contou-me sua história muito bem e sozinho, conversava bem e eu já estava animada com aquela criança. Sabe, materno-infantil é uma área que eu gosto bastante e pretendo seguir; atender crianças me faz entrar num outro modo da minha profissão, no qual eu tento deixar essa criança o mais confortável possível, não usado palavras difíceis, brincando e respeitando suas preferencias dentro do possível para exercer meu papel.
Em determinado momento a mãe me contou que ele havia comentado em casa que, caso eu o restringisse de algo que ele gosta muito, não ia querer me ver mais e, por mais que fosse algo que eu não indico, era algo que poderia ser mantido por enquanto. Com isso ganhei a confiança do rapaz a minha frente. Ponto pra mim.
Terminei minha avaliação, sondando o que ele gostava e não gostava e fiz alguns acordos, tentando melhorar o que ele gostava. Ao final ele parou, solenemente, e disse: Tudo bem, eu vou fazer tudo isso que você pediu, estou fazendo um juramento com você." Nesse momento ele estendeu a mão direita com quatro dedos flexionados, mantendo apenas o mindinho estendido. Sim, ele estava fazendo um juramento do dedinho (aliás, do mindinho, como ele mesmo me corrigiu) comigo.
Aquilo me pegou de surpresa. Aquela inocência e seriedade que ele estava depositando no nosso momento me desconcertou de um jeito que eu não estava preparada, só em lembrar sinto as lágrimas arderem nos olhos. Sabe quando você esta fazendo um esforço colossal para se manter firme e vem alguém sorrindo e diz algo que lhe conforta de algum modo? Foi tão revigorante, tão belo, mesmo naquela sala de pouca ambiência, mesmo no local que eu pouco sou reconhecida pelo meu trabalho, ali com o dedinho estendido aquela criança brilhou. Brilhou de um jeito que na simplicidade (para muitos) do seu gesto foi a luz que eu precisava e não sabia, ou sabia e fingia que não precisava por não saber onde encontrar.
E quantas pessoas a gente encontra disposta a iluminar nossos dias, não é?! Quantas vezes a gente corre da luz com medo de cegar, nos acostumamos a sofrer calados ou reclamar sem ação, sem tentar mudar.
Crianças são a representação do recomeço, esperança, são verdeiras, tão e transmitem sinceridade. Nos últimos dias eu me encontrava num estado de cobrança e autocobrança frequente, pensando no futuro e me sentindo inerte, sem certezas. Tenho me desgastado com situações que me fazem mal e por mais que eu tente não pensar, hora ou outra elas vêm. Momentos como esse, com essa criança de 6 anos, que durou menos de um minuto, mudou minha energia e eu duvido que em sua inocência ele soubesse que poderia tanto com aquele dedinho solene.
Segurei-me para não chorar ali, mas em casa me permiti senti, deixar ir o que me incomodava e não merecia estar mais em mim. Fiz um juramento comigo mesma: lembrar daquele momento ou similar, quando me sentir esgotada. Buscar pessoas que transmitam luz e levar aos outros também. Estar entre iluminados nos afasta das sombras e reacende o caminho que vez ou outra some.
Rapazinho, muito obrigada por confiar em mim e me relembrar do bem que uma criança pode fazer. Já estou ansiosa por sua próxima visita.

"Vamos fazer o juramento do dedinho mindinho

Juntar o meu mindinho com o seu mindinho 
Então fechou o trato tá feito."

terça-feira, 31 de julho de 2018

Casa

Acordei no horário habitual, li algumas notícias e levantei para me cuidar para ir pro trabalho e resolvi caprichar um pouco, só para chegar diferente. 
Coloquei uma playlist que gosto e deixei no aleatório, até que tocou aquela música, aquela, e me trouxe a discussão de ontem com meu namorado por causa da minha mãe, da discussão com ela há alguns dias, e do tempo ruim.
Trata-se de uma música cristã que questiona Deus como pode nos amar tanto mesmo sendo o que somos. Ela sempre me emociona muito e hoje não foi diferente, fui as lágrimas.
Lembrei do tempo que frequentava casa dEle como visitante, claro. Nunca foi minha morada também. Lembro que no tempo ruim eu gostava de ir lá, orava, chorava, cantava e me sentia bem, preparada para a semana pelo menos. Minhas válvulas de escape já não eram suficientes e eu me sentia uma senhora de 89 anos quando tinha apenas 15, 16, cansada como se carregasse o mundo nas costas (e era mais ou menos isso mesmo, meu mundo, o que eu conhecia, dependia muito de mim). 
Em casa haviam muitos problemas e cada um lidava como conseguia, eu assumi características permanentes como um ar de independência que chega a incomodar e dificultou algumas coisas na minha vida. Como não teria essa característica se eu tinha q assumir responsabilidades, se não tinha como contar com outros, para quem justificar? Pai, mãe? Não eram opções. Irmãos mais novos? Eu era a referência...
Frequentar a casa dEle me fez bem e eu até chamava minha família e até que eles foram algumas vezes, mas... o problema do meu pai com álcool me afastou de lá. 
Ele começou a ficar diferente, querendo ser todo certo mas n conseguiu vencer o vício então deixou de frequentar. Na igreja começaram a me perguntar por ele, porque ele não estava indo e até comentando que o haviam visto (eu bem sei o estado que ele estava quando o viam baseando-me pela forma que ele chegava em casa) aí eu parei de ir. Não quero parecer ingrata após ser acolhida mas  sentia-me envergonhada por ele ter chamado tanta atenção e logo saiu, por todos olharem para mim perguntando por ele.
Passei muito tempo sem entrar em uma igreja novamente e das vezes que entrei não me senti bem como antes. Não culpo minha família também, eu não quis mais ir no fim das contas, mas, ali na cozinha ouvindo aquela música enquanto fazia vitamina e chorava me lembrou da igreja e da sensação de estar lá e me senti abraçada a todo instante. Acolhida, consolada em paz. Mesmo que tivesse que voltar correndo para casa ou passar a noite acordada num hospital, imaginando uma diferente, ou lembrando coisas.
O que somos hoje é consequência de uma série de erros e acertos, escolhas, pessoas e situações. 
Como pode me amar, Deus?
Fui para o trabalho pensativa e acho que agora, após escrever, acalmarei um pouco minha mente.

 A música: 

Como pode me amar, Deus?
Conhecendo o meu pecado
Sabendo o que eu faço de errado
Como pode me amar assim?

Como pode me amar, Deus?
Sabendo que eu sou falho
E que o meu coração já não bate
Mais como já bateu?

Como pode me amar, Deus?
Sabendo que eu fugiria
Se a porta estivesse aberta
Como pode em mim confiar?

E ainda me pega quando estou caindo
E me abraça quando estou chorando
E segura as minhas mãos
E me leva pra perto das chamas de amor
Que ardem em Teu coração e não se podem conter

Como uma flecha que estoura em meu peito
E me traz de joelhos enquanto eu choro
Tenha o meu coração
Minh'alma soluça
Quando eu percebo o contato de Seus olhos com os meus

Como pode me amar, Deus?
Sabendo o que eu diria
Sabendo que eu me frustraria
Como pode me amar assim?

Como pode me amar, Deus?
Sabendo que eu Te culparia
Pelo que não foi como eu queria
Como pode me amar assim?

Como pode me amar, Deus?
Sabendo que eu me fecharia
Quando Você quisesse entrar
Como pode em mim confiar?

E ainda me pega quando estou caindo
E me abraça quando estou chorando
E segura as minhas mãos
E me leva pra perto das chamas de amor
Que ardem em Teu coração e não se podem conter

Como uma flecha que estoura em meu peito
E me traz de joelhos enquanto eu choro
Tenha o meu coração
Minh'alma soluça
Quando eu percebo o contato de Seus olhos com os meus

Me leva pra casa
Eu quero voltar
Pois longe de Ti
Não é o meu lugar

Eu corro depressa
Pra Te encontrar
De braços abertos
Como alguém que esqueceu

Me leva pra casa
Eu quero voltar
Pois longe de Ti
Não é o meu lugar

Eu corro depressa
Pra Te encontrar
De braços abertos
Em meu lugar

Me Leva Pra Casa - Israel Subirá

Adulteci?

A palavra é nova, o corretor do google não reconhece mas o significado não é difícil de imaginar. Em essência a maioria das pessoas acima de 20 anos, entende.

Adultecência é uma fase da amadurecência que vem depois da adolescência, compreendeu? Parece nome de doença, mas não é. Adultecer significa acordar já pensando no almoço e já ir tirando algo para descongelar porque o dia vai ser corrido; é sentar para calcular as contas do mês, fazer planilha e planejar a semana; é acordar uma hora mais cedo para escrever um texto como esse e ainda tomar café durante o processo para não se atrasar; adultecer significa que, não importa o quanto você chore, mês que vem as contas chegarão, bonitinhas como sempre.

Eu adulteci? Sim, e foi tão natural que mal me dei conta. Custei a entender que isso chegaria e depois que era real, que almejei isso minha infância inteira e agora uma das minhas metas e ter uma casa ampla e planejada com um jardim e varanda gourmet.

Adultecer é compreender os esforços dos nossos pais, é valorizar as coisas pequenas não pelo valor em si mas pela representação dos nossos esforços. Se orgulhar de um carro velho ou apartamento pequeno? Só entenderão os que sabem quanto custa cada horinha trabalhada num mês.

Mas calma, adultecer não é só labuta, desculpa me expressar assim. Também tem várias partes agradáveis, a maioria na realidade é boa. Liberdade para fazer escolhas de acordo com o quanto você está disposto a se esforçar por aquilo, encontrar paz em uma tarde para hobbies ou em ouvir uma musica boa, cozinhando na sua casinha que tem sua cara. É uma delicia saber que os esforços até aqui lhe proporcionaram momentos assim, de alegria e plenitude, momentos que só lhe resta o sentimento de gratidão à tudo, inclusive aqueles perrengues para ir para a faculdade em dia de chuva e perder o ônibus, ou chorar por uma nota baixa, ou ter que aguentar aquele colega de trabalho chato.

Adultecer é atingir uma maturidade que te permite aproveitar mais a vida, a vida que construiu para si e se alegrar com cada pedaço dessa construção.

Não posso negar que foi e ainda está sendo ralado, tem dia que eu só queria sentar na frente da tv e assistir desenhos, mas não consigo imaginar alcançar o que tenho e ainda quero ter sem essa maturidade que venho conquistando. Na real só consigo agradecer por ter chegado até aqui bem e disposta a continuar em ascensão. Rumo a melhor idade!

(Ó Pai, agradeço por me permitir crescer à tua sombra, de acordo com seus planos que sempre são melhores que os meus [não canso de repetir]. Posso não ser filha mas sou uma criatura muito obediente. Obrigada!)


quarta-feira, 11 de julho de 2018

Prelúdio

Eu sem você
sou só desamor
um barco sem mar
um campo sem flor
Tristeza que vai
tristeza que vem
Sem você meu amor eu não sou
ninguém

Samba em prelúdio - Vinícius de Moraes


Eu tenho me sentido assim, como o Vinícius cantou há tantos anos, com relação à escrita. Ultimamente, sucumbida em uma rotina de trabalho, nas preocupações cotidianas, não consigo me dedicar a este que é muito mais que um hobbie, é minha terapia, meu momento de organizar as ideias, os sentimentos.
Tenho estado um tanto perdida, um misto de "hein?!" com "O que está acontecendo?!", nem sei mais escrever, não me sinto segura para tal e procrastino tanto! Há tantos assuntos relevantes para mim que não saíram da minha cabeça ainda... Tanto a dizer, refletir, desenvolver!
Fico na expectativa de logo mais ter algum tempo e me organizar melhor para ter uma rotina mais flexível para ter meu tempo de fato, mas vejo que quanto mais o tempo passa mais isso parece distante de uma realidade palpável. Isso me entristece tanto, fico perdida "Um barco sem mar, um campo sem flor". 
Quem sabe, depois desse, eu consiga empurrar mias algumas palavras, frases, parágrafos para fora (esses cativos de mim). Preciso gritar o que não cabe.
Espero conseguir.
Veremos. 

domingo, 24 de junho de 2018

Ela e Eu por mim



É engraçado como começou isso tudo. Lembro que a conhecia da escola e até estudamos numa mesma turma por vários anos e, mesmo tendo amigos em comum e frequentando os mesmo lugares, só nos aproximamos no último ano da escola e isso só cresceu quando acabou, o que também é curioso já que a tendência é se afastar depois que a rotina muda, os hábitos, ares. Mas nós não, somos do ar e isso nos une, quero dizer a astrologia foi um dos assuntos que nos trouxe para perto uma da outra, assim como música, vinhos, escrita, livros, mar, fotos, crises existenciais e conversas profundas noite a dentro. 
Na escola não éramos amigas. Ela era do tipo popular enquanto eu tentava passar despercebida, mas confesso que sempre achei que seria uma amizade interessante porque eu curtia as ideias dela, a vibe. Ela parecia ter uns pontos de vistas mais elaborados que o resto da turma e dava para imaginar as conversas indo longe a partir daquele ponto. Hoje em dia somos amigas do tipo “muito amigas”, do tipo que conversa sobre cada acontecimento relevante não importa o dia nem a hora. Do tipo que eu considero a voz dela como a da minha consciência e, se eu tiver meio desorientada falo com ela, o que ela aconselhar eu faço sem questionar o que é interessante porque sou do tipo rebelde e questionadora, mas não com ela. Por que eu confio, sabe? Acho que ela me conhece como poucas pessoas, pois tem uma sensibilidade aguçada (acho que é esse Marte, mercúrio...) tem interesse. Ela funciona como um diário que fala e anda, qualquer coisa de mim, acredite, ela sabe. E minhas viagens, ela entende (nem eu sei como, já que nem sempre eu mesma entendo).Mesmo com a rotina diferente, mesmo com profissões diferentes e morando e cidades diferentes, somos amigas-irmãs.
Da escola para cá muita coisa aconteceu, muita coisa mudou. Hoje eu consigo ser mais aberta, sincera, contar mais com as pessoas. Hoje eu a vejo feliz apesar dos perrengues, vejo a mulher forte, que ela sempre foi, enfrentando um leão por dia e rindo. Vejo ela ficar cada vez mais serena e em paz com sua espiritualidade e é feliz ver isso pois eu acompanhei uma parte de seus obstáculos até aqui, e sei que não foi fácil. Espero estar presente em mais momentos, seja para comemorar ou para consolar, chorar junto, porque somos assim: estamos e somos uma para a outra, não importa o dia ou hora.
Gratidão a Deus e a vida por ter alguém assim no meu caminho, na minha história. Amo você, viu?! 💗
O outro texto, na versão dela, está aqui!

P.S.: Amiga, desculpa a demora, no WhatsApp o porquê.
P.S 2: Sou muito sem jeito para falar de mim, cês entendem, né?!

terça-feira, 19 de junho de 2018

Variações do mesmo tema

Ooooi!

A partir de hoje estarei alimentando um novo marcador Variações do mesmo tema em conjunto com a Liz, do Fazendo Morada
Funcionará assim: Escolheremos títulos/temas para escrevermos, cada uma a partir de seu ponto de vista, sem muita conversa a respeito previamente, e depois colocaremos o link do texto da outra nos comentários, assim podem ler um e em seguida já ver o próximo. Nossa intenção é comparar nossos pontos de vista, não de forma competitiva para ver quem é melhor ou pior e sim para visualizar as diferenças de acordo com a história e experiências de vida de cada uma porque, ter a mesma idade, nascer na mesma cidade, ter amigos em comum, gostos comuns, signos do ar e etc, não é suficiente para prever certos posicionamentos a respeito de algo.
Então é isso, espero que esse marcador seja muito alimentado e que sempre seja uma experiência interessantes descobrir coisas novas, tanto em mim quanto nela.

Ótima leitura a todos, ótima escrita para nós!


segunda-feira, 18 de junho de 2018

"Quer casar comigo?"

Meu amor, eu te amo tanto e já to com tanta saudade! Imagina quando eu voltar mais tarde pro almoço e ter que comer sozinha (se eu fizer almoço). Você é tão bom (e isso nada tem a ver com emprego, qualificações profissionais ou formação) que as vezes acho que não mereço tanto. Você é honesto, justo, atencioso, perseverante, motivador, paciente, carinhoso e a cada dia me aproxima mais de Deus (vc e Ju), e isso é muito bom.
Cada dia te admiro mais por saber de tanta coisa que você passa/passou e ainda continuar sendo doce, como um menino. Meu menino.
Eu te amo muito e quero que continue contando comigo nessa fase difícil. Logo estaremos juntos agradecendo e comemorando suas conquistas que serão muitas e seguidas, muitas bençãos para nossa família. Eu sei que você vai passar por isso e será um novo homem num novo emprego, com uma nova visão do valor e importância dele em sua vida, será o melhor em qualquer coisa que for fazer. E vai estudar p ser cada vez melhor, por que vc merece, sua filha merece, sua mãe merece.
Eu amo muito você e responderia essa sua pergunta mil vezes até que seja a real-oficial, aquela acompanhada de um anel de noivado na mão direita e depois uma aliança na esquerda. Quero quero sua força motivadora todos os dias da minha vida e quero que a gente cresça junto, por que além de tudo você consegue me fazer rir, expressar sentimentos, faz com que eu me sinta bem para ser eu mesma (inclusive brega), me motiva quando eu me sinto cansada e desestimulados, me consola e chora comigo, ora por mim, ora comigo, por ser minha melhor companhia, seja para um filme no cinema ou para andar de busão com as passagens contadas.
O amo tanto que tantas linhas que escrevi e não consegui chegar na a expressar bem isso, não consigo te fazer entender o tamanho disso, só de pensar na dimensão... sinto uma coisa estranha no meio do peito e da vontade de chorar. É tão grande o que eu sinto e só aumenta!
Eu amo você todos os dias (até com raiva) e amo cada vez mais, meu amor.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Casamento não

Hoje amanheci com a garganta doendo, como se estivesse em processo inflamatório, o que é curioso visto que tenho me sentido bem, sem febre ou dor de cabeça, me alimentado bem, comendo frutas ricas em vitamina C inclusive. Na verdade eu até sei o que pode estar causando tais sintomas, viva a metafísica!
Foi a conversa antes de dormir, claro.
Porque o assunto casamento é tão recorrente e causa tanto reboliço? É sempre assim! Eu já disse que não pretendo tal ato mas confesso que posso parecer confusa quando digo que gosto das cerimônias em si, gosto de casamentos (dos outros).
Fui comentar que serei madrinha de mais uma amiga, que dei um empurrãozinho fundamental digamos assim, aí o assunto veio todo novamente.
Eu não sou contra o casamento de modo geral, não saio por aí esbravejando "não sejam idiotas, casar não presta, só perda de tempo!" só não acho que isso seja para mim  isso me faz pensar se eu realmente não quero casar ou se não quero casar com esse tal que tem passado uma temporada em meu coração. 
Antes de conhecê-lo lembro que já não queria, estava me curando de alguns processos e talvez está tenha sido uma consequência mas, antes desses processos, em um tempo que parece outra vida, eu queria casar. 
Casar num lugar bonito, com muitas cores, um dia de alegria, celebração, união. Um dia, que seria um dos mais lindos da vida, que duraria para sempre em minha memória, com a família lá, amigos, depois fotos, discurso, choro dança, festa, vida... Amor! Eu estaria tão feliz que ia ficar com os músculos da face doídos de tanto sorrir e gargalhar, aquela  gargalhada gostosa de fazer chorar, sabe?! E depois isso um casamento tranquilo, feliz e próspero.
Hoje, não sei. Quando penso em casar com este rapaz só me vem à mente uma ida ao cartório no intervalo do almoço, usando jeans e camiseta (tá, pode ser uma camisa de botão) para deixar minha certidão de nascimento e pegar uma de união estável ou coisa assim. Algo abominavelmente sem graça para uma sonhadora como eu. Não sei se isso é o que se chama de maturidade, rabugem ou só não gostar dele. Será que isso é crescer ou dá para ter um romance de “adolescente” na “fase adulta”? Não consigo visualizar diferente e quando tento colocar isso num lugar bonito, tipo uma praia, me vejo séria, rezando para acabar logo a cerimônia, sem dança. Não é feliz e isso me entristece de um jeito que ainda não sei explicar mas dói e cria um nó na garganta, uma vontade de chorar, gritar e depois calar sem forças para sair do lugar.
Eu não sei se algum dia casarei, muito menos se casarei com ele mas, ideializar isso na minha mente é incômodo de modo que prefiro evitar se quiser continuar relacionamento que estamos. Mas aí mora o perigo: será que espero que esse desejo floresça ou estou apenas empurrando um problema com a barriga por puro comodismo ou covardia?

domingo, 25 de março de 2018

Nota sobre despertar

Oi amor,

Sei que já faz um tempo que não te escrevo, também, com essa correria toda, sorte a nossa ainda nos vermos, com mais frequência até. Na estrada fiquei pensando sobre o início do dia então resolvi escrever.
Hoje, acordei várias vezes na madrugada, o que é incomum quando bebo alguma delícia etílica antes de dormir, mas acho que isso aconteceu porque você estava do outro lado da parede e eu queria estar lá, com você. Então fui, meio sonâmbula pouco antes de amanhecer e deitei, já me encolhendo perto de você. Eu gosto dos seus braços ao meu redor, teu queixo no meu pescoço, teu corpo colado no meu. Quando acordei, quando acordamos de verdade, fiquei pensando em como é bom acordar do nosso jeito. Como nos fortalecemos no bem que fazemos um ao outro e assim, nos preparamos para o dia, seja ele leve ou desafiador.
Eu amo tanto dormir e acordar com você que as vezes me pergunto se isso vai ser sempre assim, será que dá? Para sempre? Velhinhos e tudo? hahaha
Eu gosto dos seus braços ao meu redor, teu queixo no meu pescoço, teu corpo colado no meu. Eu gosto quando nossos corpos nos obrigam a acordar e por nosso bom-dia ser tão nosso. 

(Já) Estou com saudade.
Amo você. Muito.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Aconchego

Cheguei tão cansada da viagem que acabei dormindo sem estudar, jantar ou falar com ele.
Acordei na madrugada com sede e com a consciência pesada por não ter estudado. Fui beber água, fui ao banheiro e ao voltar para o  quarto e deitar, percebi a cama tão maior! Bateu saudade. Saudade dele, claro.
Inevitavelmente lembrei das noites anteriores nas quais dormimos dividindo um colchão pequeno e é tão engraçado perceber que, logo eu, que nunca gostei de grude, que nunca fui muito chegada a longos abraços apertados, me vejo assim: amando dormir junto dele, dormir enrolando braços e pernas,toda entrelaçada, tão juntos que mal se pode respirar. E eu me sinto bem, em casa, em paz.
É engraçado como eu gosto de estar entre os braços dele e como encontrei em seu peito o melhor lugar para tirar um cochilo: é macio, quentinho e eu fico ouvindo coração dele batendo numa sincronia certinha, sístole, diástole, sístole, diástole... Às vezes até nossas respirações se sincronizam e eu então percebo o quanto estamos cada vez mais alinhados.
Pensar nessa sincronia toda me faz pensar como tem acontecido tanta coisa em nossas vidas, tantas mudanças que eu não tenho escrito, não tenho conseguido pensado e quando lembro me assusto as vezes ("Como chegamos aqui?"). Não raramente me perco no quanto nos aproximamos, no quanto estamos bem e como eu gosto de estar com ele. Eu não imaginei em nenhum momento que ficar junto assim me faria tão bem e faria tanta falta também! Justo comigo, a rainha da independência, a aquariana livre, leve e solta nesse mundão, doida para voar.

Enfim, ao deita na cama tentei da melhor forma possível substitui-lo com um travesseiros e almofadas, mas nem deu, né?! Não tinha aquele aconchego, nada tinha o calor dele. Ai resolvi ligar e dizer isso, aposto que ele ia gostar de acordar no meio da madrugada assim. Ou talvez amanhã, meu sono está voltando.

*Durmo e sonho com ele, alguma coisa que não lembro, mas sei que ele estava. Como sei? Bom, ele foi a primeira pessoa que lembrei, antes mesmo de abrir os olhos e acordei leve. É, certamente ele estava por lá sim.

Nem preciso dizer que amo você né?!

sábado, 18 de novembro de 2017

Rainha das limonadas

Há alguns anos falei aqui como era difícil ser a Pedra, a Rocha da casa, que aguenta tudo, por todos. Na época eu estava no meio do furacão que durou alguns anos da minha vida, os que deveria ser os mais divertidos - infância II e adolescência.
Hoje em dia eu tenho esse assunto como um passado; chato, doloroso e importante passado e falar dele ainda é algo que requer organização das ideias, embora eu esteja me saindo relativamente bem ao longo das tentativas.
Quando eu tinha uns 10 ou 11 anos fiquei sabendo, sem entender bem, que minha mãe não estava feliz no seu trabalho, já tinha um tempo, e estava sendo acompanhada por psicólogo e psiquiatra, fazia terapias individuais e grupais. Pouco tempo depois eu aprendi o que era assédio moral e que ela passava por isso com sua chefe. Uns dois anos mais tarde, quando minha avó paterna faleceu, aprendi o que era depressão, TOC e bipolaridade. E medo.
Eu tinha muito medo: medo de perder a pessoa que mais amo dessa vida, medo de sair de casa e acontecer alguma coisa, medo das variações de humor, medo do conteúdo das próximas frases, medo de perder a paciência e falar ou fazer o que não deveria... era tanto medo que tirava-me o sono, a paz. Eu tinha pesadelos constantemente e não queria sair de casa, ou se saia era com pressa para voltar, porque eu tinha que pelo menos ficar de olho, por perto, atenta (sempre alerta!). Isso na adolescência é um saco porque é nessa época que você, geralmente, vai descobrindo as coisas da vida, é quando você apronta e faz as histórias que contará para as próximas gerações. Eu não, não tenho muito para contar. Naquela época eu mal via minha mãe, ela dormia o dia todo, quer dizer, vivia dopada, e quando acordava era madrugada. Andava pela casa toda e só nos via dormindo. Ela, que costumava fazer nosso café só voltou com a prática anos depois e mesmo hoje em dia, com todos crescidos e independentes, ela faz questão de preparar.
Bom, mas voltando àquele tempo, sem entrar mais em tantos detalhes, essa fase foi difícil para todos: meu pai se jogou com vontade na bebida, minha irmã arranjou mil e uma ocupações, meu irmão, na época uma criancinha passava o dia assistindo ou jogando e, a medida que foi crescendo foi tomando várias responsabilidades para si e hoje parece um velho: não sai de casa, poucos amigos, mania de limpeza e organização. Cada um procurou sua válvula de escape, sua forma de se adaptar e levar a vida até que as coisas melhorassem. Aposto que você está se perguntando por mim, o que esta que vos fala fez: Arranjei minha válvula também, ué: me lancei nos fones, livros e cadernos. Passei a escrever tudo que sentia, refletia ou queria sentir. Inventei histórias, criei novos meios, novos finais e, na boa, acho que não escrevo tão ruim (hoje em dia, pelo menos). Ah, além de arranjar minha válvula e acabei virando pedra, digamos assim, porque né, vamos combinar, era foda, muito difícil encontrar um pontinho de equilíbrio então eu não deixava ninguém mais entrar na minha vida (de problema e choro já bastavam os meus, né mores?!).
Há um tempo, li um texto que dizia que, para se relacionar, as pessoas precisam baixar a guarda, afinal, se você não precisa de ninguém (nunca, para nada) por quê alguém vai querer está perto de você? Autossuficiência em relacionamento é furada pois você se torna uma pessoa que nunca encontrar alguém a sua altura. Sabe que eu achei interessante e até concordei?! Não tinha pensado nisso, mas faz bastante sentido e me identifiquei. Sei lá, pensei na minha vida. Bom, eu me fiz (ou fui feita) dura. Penso que precisei o ser. Era isso ou isso. Sentir medo e pedir colo para a mamãe? Orientação do papai? Nem pensar. Alguém brigou comigo na escola, chorar por isso? Não mesmo (dá teus pulos, garotinha!).
Na falta, eu tinha que me virar e ainda ser essa pessoa pros meus irmãos mais novos. Eu acho que virei uma pessoa que não precisa, emocionalmente de ninguém, criei várias barreiras, cascas e foi isso. Me viro como dá, aprendi a usar os limões que a vida me trouxe, sou a rainha das limonadas (e caipiroskas também).
Alguém tinha que segurar as ponta né, então eu fui. Por mim e por eles. No meio do processo ouvi muita coisa injusta, palavras ásperas carregadas de raiva, do tipo que magoa mesmo e dói sempre que lembrada (por isso bloqueei-as). Chorei quieta e sozinha várias vezes, procurando/pedindo soluções/direções. 
Hoje as coisas são mais "leves". Hoje eu já falo mais sobre isso, procuro textos e filmes emocionais exatamente para isso: para sentir, não ser mais tão dura. Tenho praticado essa coisa de permissão também. Me deixar precisar, querer, não ser uma pedra. Ser mais flor. Kkkkk pode rir, é engraçado. Não sei ser fofa, nem meiga, nem carinhosa. Não cresci assim, segui mais a linha do "ser forte, resiliente, cuidadosa e protetora", mas estou tentando ser mais carinhosa, embora seja um desastre nisso. Atualmente, quando vejo que temos mais dias bons que o contrário, quando a vejo rir não tenho mais medo que após a euforia venha a tristeza profunda e amarga. Hoje sorrio e respiro orgulhosa e aliviada por termos saindo daquela, por ela ter vencido, por estar ali, rindo tanto que chega a chorar.
Sim, hoje estamos bem.

P.S.: Foi um verdadeiro "parto" escrever esse texto. Parir cada frase dessas, que me lembram essa fase. Cada letrinha foi carregada de incontáveis memórias. Por sorte os partos não trazem só dor, há principalmente a alegria do novo, do nascimento, da mudança. Uma nova perspectiva, um novo ciclo se iniciando.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

"O que você sente quando te olho?"

A pergunta veio assim mesmo, do nada. Sabe que eu ainda não tinha pensado sobre isso?! É tanto que protelei a resposta, para poder pensar sobre, analisar de um, dois ou vários ângulos.
Passamos muito tempo longe e, honestamente, não me parece difícil. Sim, é foda às vezes, mas no geral levo bem, sem neuras porém, quando vai se aproximando o dia da viagem, fico um pouco ansiosa. Quando te encontro pronto, passou. Sei lá, estar perto de você causa uma certa agitação em mim (nem parece né?!, eu sei). Você tenta, sem sucesso, me fazer rir com piadas bestas que nem consegue terminar de contar antes de rir (e gosto quando rir, acho divertido) e acabo rindo, então meu riso, seu riso, tudo se mistura e eu fico ali, rindo como besta, ainda que tente o contrário.
Você tem hábito de me olhar já com um riso bobo e eu pergunto "Tá olhando o quê?". Fico me perguntando "Do que esse bocó tá rindo?", às vezes eu pergunto em voz alta mas nunca recebo resposta além de um "nada" risonho ¬¬. Eu não gosto de ser encarada, me incomoda mas, quando vem de você eu não ligo, as vezes até me agrado de um olhar de contemplação e felicidade que eu vejo ali naqueles olhos fundos e puxados.
Quando você me olha eu penso "o que estamos fazendo? Será que algum dia serei recíproca a tudo que ele sente?", "por quê estou rindo tanto?", "caramba, que cara sortudo!", "por quê tá demorando para me beijar?"
Quando você me olha fico feliz de te ter por perto comigo e para mim, por você sair de casa ao meio dia só para passar meia hora comigo (este pequeno ser andando de um lado para o outro arrumando uma mochila as pressas), fico feliz por saber que você se preocupa com meu bem estar e saber que eu me preocupo com você também, por saber que estou aqui para você. Quando nos olhamos eu sinto algo crescer entre nós (e não é um bloco de gelo) e isso me faz rir.
Na troca de olhares há incertezas, sim, mas há alegria, bastante, por isso não paro de rir, nem quero então pode continuar me olhando. :)

segunda-feira, 29 de maio de 2017

O bem que vem do outro

Oi, olha como a vida é zueira, te faz sorrir mesmo quando as coisas não estão favoráveis. Ontem eu tava meio bad por causa dos meus olhos aí hoje fui fazer uma visita e a mãe do paciente pediu para tirar uma foto minha para mostrar a netinha o quanto meu cabelo era bonito. Depois do atendimento essa senhora foi me acompanhar até a meu trabalho; no caminho um senhor me parou e disse "moça, deixa eu te pedir um favor, do fundo do meu coração?" Eu pensei que era sobre atendimento ou coisa do tipo, mas aí ele continuou "... Nunca alise seu cabelo, ele é lindo, muito bonito... Você é! Hoje em dia tanta gente com cabelo alisado, tanta gente querendo ter um cabelo assim e não pode...". No trabalho uma das colegas pede para eu trocar de cabelo com ela. 

Coisas da vida, os olhos não estão lá essas coisas mas o cabelo tá numa fase boa.