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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Um sonho dentro de um sonho

Eu lembro que estava num sonho bom, passeava por um apartamento que mais parecia um hotel, e era meu. Eu estava na presença de pessoas queridas e tinha festa. De repente eu estava num carro bem esquisitinho (como aqueles de palhaço) dirigindo de forma improvável pelas ruas e percebi que tinha liberdade para fazer o que quisesse, como se soubesse que era um sonho. Estava divertidíssimo.

Ao sair do carro entrei num prédio e começava a tocar uma música muito boa, animada e que eu não lembro qual é (mas era algo como Viva la vida de coldplay, com aquele energia crescente sabe?! Ou talvez Everybody wants to rule the world, de Tears for fears, só que mais dançante e rápida) eu entrava dançando, animada, interagindo com todos que apareciam em meu caminho. Era como se fosse a protagonista de um clipe. Lembro de abrir várias portas e cantar e dançar junto com pessoas aleatórias. Na última curva eu lembrava que já tinha vivido a cena que viria a seguir e assim que ela entrou no ambiente, como se fosse mais uma integrante animada e dançante do meu clipe, eu desmoronei.

Ela estava linda, alegre, redondinha, sorridente e dizia que me amava com os olhos. Era minha avó. Eu senti uma dor tão grande que a música parou e eu me pus a chorar, de joelhos. Acordei aos prantos. Meu inconsciente nunca foi tão cruel. Vê-la daquela forma constatou que era um sonho foi triste demais vê-la tão maravilhosa e saber que isso nunca mais acontecerá. O Alzheimer tem a consumido e tudo que vejo nela hoje em dia é um olhar perdido e suplicante.

Minha avó sempre foi enérgica, calorosa, amorosa e agitada. Vovó não parava quieta e queria sempre nos ver bem: vestidos, alimentados, brincantes. Eu amava as comidas que ela preparava, quando estava fazendo faculdade fora que chegava na cidade, era certo ela preparar o frango de panela com macarrão que eu amava e ai de mim se não fosse. Sempre que falava com ela, perguntava: "Fia, alguém já disse que te ama hoje?" eu respondia que não e recebia uma declaração de amor. Amor mútuo. Amor esse que ficou gravado em mim para sempre, tatuado em minha pele, como uma forma e externar nossa troca, para que ela exista não só na minha memória: sempre que explico a frase, espalho o amor da minha avó e isso me faz sorrir.

Sonhar com ela tão feliz e no próprio sonho ter a consciência que era uma lembrança, que ela não era mais aquela pessoa, que está doente, atingiu um grau de tristeza que há um tempo eu não experimentava. Algo profundo, forte. 

Escrever esse texto foi sentir tudo de novo e as lágrimas novamente correram por meu rosto. O pior é que ao acordar chorando com o sonho veio também um outro pensamento que me veio no plantão passado. Será que o sonho foi algum tipo de sinal?


Estão comendo o mundo pelas beiradas
Roendo tudo, quase não sobra nada
Respirei fundo, achando que ainda começava
Um grito no escuro, um encontro sem hora marcada

Ontem eu tive esse sonho
Nele encontrava com você
Não sei se sonhava o meu sonho
Ou se o sonho que eu sonhava era seu

Um sonho - Nação Zumbi


Cacos de vidro

            Está tudo uma confusão e não há tempo para organizar. As coisas precisam de posicionamento, ação, resolução e eu estou procurando a bolsa, a chave, o par da meia. Sinto-me perdida no rolê, me propus a fazer coisas grandes a agora não me sinto capaz de nem 10%. Uma farsa.

E é tão louco pensar dessa forma, quando, olhando de fora eu estou na minha melhor fase: Estabilidade e reconhecimento profissional, finanças em dia, bons amigos, autocuidado e hobbies em dia. E o que acontece? Estou perdida. Estou correndo, correndo e nem sei para onde.

O que eu estou procurando? Onde eu quero chegar? Qual o objetivo disso tudo?

Ao mesmo tempo, quando eu não estou correndo no meio profissional, eu me desligo de tudo, vivo como se o mundo fosse acabar nas próximas horas, esqueço razão, bom senso e sentido de autopreservação.

Estou perdida e vazia. E sei fingir muito bem, de modo geral, sou funcional e não há que diga que não estou ótima. Mas eu sei o que é andar nesse salto 15 e especificamente hoje eu se sinto pior até mesmo para disfarçar. Sinto o peso das responsabilidades que acumulei porque eu quis e fui atrás e agora me sinto sem energia para sustentar.

Quero dias alegres, alegria que fique um pouco, para além dos excessos do fim do mundo.


No domingo, eu li sua carta imensa contando tudo
A primeira vez que eu soube o que pensa, soube de tudo
E fiquei como quem não vive no mundo
E daí esse meu silêncio profundo
Eu senti que a tristeza ia chegar e mudar
Ia tomar meu coração
(...)
Eu senti que a tristeza ia chegar e mudar
Ia tomar meu coração
(...)
Apesar do coração, ainda 'to vivo
Nunca vi tanto poder em caco de vidro (uh)
Já 'tá passando a chuva, agora é só o sereno (só o sereno)
Eu posso ser a cura, já que sou o veneno (sou o veneno)
Eu não 'to me explicando, eu 'to me entendendo (entendendo), oh
Isso que tu não entende

Cacos de vidro - BK


segunda-feira, 23 de março de 2026

Caravaggio com colar de Gandhi - Baco Exu do Blues

 Ah
Nem as drogas têm o gosto de antes
Eu sou a nova tropicália em fragrâncias
Um baiano com o cheiro arrogante
Caravaggio desenhando com um colar de Gandhy
Eu amo vencer, eu não sou corajoso
Eu só não vou me permitir a perder pro medo
Eu puxo o arco mesmo se isso ferir meu dedo
Um jovem Odé dança e ri banhado de sangue (sangue)
Como vulcão adormecido
Eles acham que não vão ser destruídos por minha ira
Espera eu ser pai de menina pra ver se desenvolvo empatia pelo mundo
Estou a segundos de explodir essa merda
O homem é seu próprio demônio
Eu ando dormindo sem sonho
Há algumas semanas, aí meu lado ruim desperta
O Jordan protegendo o tendão de Aquiles
Foda-se (foda-se), ninguém me acerta
Ainda lutamos por um mundo onde seremos livres
Põe o gelo do hematoma no copo do drink
Só se envenena água parada, então se movimente
Enfrente o que tiver na sua frente
Derrotas são passageiras, desistir que é pra sempre
Então foda-se
Coloquei um espelho no final do abismo
Criei o infinito, espero que Deus perdoe o destino
Memórias são feitas por problemas físicos
O perdão é irmão do impossível
O inferno é um copo de cólera, bebemos sem brinde
As paredes não aguentam mais murros
Me soltaram no ringue
Não deixe sua fera interna com fome
A faca que divide o pão também tira a vida da carne
A guerra precisa de arte
Quando eu escrevo, Apollo dança com Ares
Sem ódio, a beleza não existe
Qual o nome da sua Helena de Tróia?
Não confunda o fim com imortalidade
Não seja burro, com o tempo, todos são esquecíveis
Existem coisas que você não vai contar pros seus filhos
Ah, sou cruel igual o dinheiro, Casa Branca pra mim é terreiro
Esses gringos colonos ainda procuram tempero
Dendê não se vende, não desistimos, ainda estamos aqui (aqui, aqui)
Ainda lutamos por um mundo onde seremos livres
Põe o gelo do hematoma no copo do drink
Só se envenena água parada, então se movimente
Enfrente o que tiver na sua frente
Derrotas são passageiras, desistir que é pra sempre
Então foda-se



Membro Fantasma

Socorro
Não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir
Socorro
Alguma alma, mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor!
Uma emoção pequena, qualquer coisa!
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Lembrei dessa música do Antunes outro dia, tem quase 30 anos que foi lançada, mas nunca me fez tanto sentido. Eu gostava, ouvia mas só agora eu de fato a sinto. Com tudo que tem acontecido, sinto esta com dificuldade de expressar e perceber sensações e sentimentos. Como se em uma realidade paralela eu estivesse sentido o baque de um término, em outra realidade tenho que me dedicar ao meu novo trabalho, sem perder de vista o trabalho que já tinha antes e me preparar para um concurso muito criterioso. São situações adversas que não se conversam e eu preciso escolher uma para viver. Claro que estou indo na via do trabalho e dos meus projetos, mas sinto está distante de uma parte de mim mesma, que sofre, que não está sendo devidamente acolhida por mim mesma. 
Mas eu não vivo em mundos paralelos. Só me é disponibilizado este mundo, essa vida e essa realidade onde tudo ocorre ao mesmo tempo, sem pausa, sem vírgula e sem horário pro chorinho que se acumula num ritmo de conta-gotas.
É uma sensação estranha, um vazio difícil de explicar. Algo me foi tirado, não, arrancado, de forma brusca, sem anestesia, sem preparação. Lembra-me a síndrome do membro fantasma,, muito relatada por pessoas que sofreram amputação de algum membro. Essas pessoas sentem o membro, dor no local que não mais existe, formigamento. O cérebro continua processando sinais da área ausente, gerando essas sensações reais de dor, queimação e presença, ainda que ausentes.
No meio de tudo isso, a sensação que me dá é que minha cabeça é um grande carrossel, que não para de girar, só que gira cada vez mais rápido pois a alavanca quebrou. Gira, gira, mais rápido, mais rápido. Além da questão emocional, do misto de sensações em aprender e ensinar, das obrigações, existe ainda a burocracia, a parte chata. Papel, banco, decisões palpáveis, e por mais que se diga "pense no que você sente", "no que você quer", eu também tenho que pensar na burocracia que esta sentadinha no meu colo esperando a vez dela de ter minha atenção. E o carrossel não para de girar.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Primeiro dia de aula

Esse mês as aulas recomeçaram, um semestre inteiro de oportunidades e novos conhecimentos. E eu voltei para a sala de aula, porém dessa vez não sou só aluna. Sou professora, e pensa numa viagem! Tem sido uma experiência interessante e também desafiadora. Tenho me observado e aprendido mais sobre mim mesma. Eu falo rápido, simplifico muito, sou exigente. Tem sido um grande exercício de autoconhecimento, como tudo que eu faço e me envolvo, tudo diz sobre mim também.

Dar aulas exige que eu estude mais, leia e aprenda sobre muito mais do que o que eu planejo falar na sala de aula, pois as vezes a dúvida não é necessariamente sobre o conteúdo que ministro. Nunca me sinto realmente pronta para estar na sala de aula e sempre saio com a sensação que posso e preciso melhorar mais. Cobro-me ciente que estou em sala de aula há menos de 15 dias.

Estou cheia de planos, acho que agora o mestrado vem. Gosto da sala de aula, de falar, ensinar, aprender com o processo. Será que um dia me acostumo com o pronome "Professora"?

"Quem eu sou para você?"

 Sim, ele teve a audácia de perguntar. Depois de tudo. E eu respondi:

Acho que você foi uma pessoa bem importante no meu caminhar. O primeiro o qual permiti que me conhecesse com toda a bagunça que era/sou e na minha vida como estava/é. Eu me permiti, a partir de sua chegada, me colocar no lugar desconhecido e desconfortável que pode ser estar em um relacionamento. Não quero com isso dizer que relacionamentos são ruins mas sim que viver um tem desconforto. Desconforto em mudar para haver equilíbrio, de entender o outro por mais que não faça sentido na própria perspectiva, mudar por realmente precisar mudar mas só o contato com o outro tornar isso evidente. 

Eu permiti que entrasse em minha vida, despi minha alma e isso é muito importante, era algo muito difícil para mim. Você foi uma pessoa importante na minha vida. Importante até mesmo por quebrar toda essa confiança e espaço conquistado e construído no decorrer dos anos. Ninguém poderia me magoar tanto sem que tivesse permissão de me conhecer tão de perto.

E agora eu sinceramente não sei se você pode continuar sendo alguém importante ou se deve ter o reconhecimento da relevância e ficar no passado, como parte da minha história

Pensando na alma e na confiança me veio uma analogia simples mas bem eficaz para exemplificar isso: 

É como se eu tivesse um cristal enorme, muito reluzente e frágil. Carreguei a vida toda com muito cuidado. Vc chegou, achou bonito e pediu para ver. Com desconfiança deixei que visse, mas na minha mão. Vc continuou ali, pedindo para segurar, ressaltando que era capaz e tomaria cuidado, até que um dia, enfim, deixei. Mas ficava de olho a todo instante, atenta e sempre avisava “cuidado para não cair”, “está seguro?”, “se vc quiser descansar me avisa e me devolve”, mas você não soltava e seguimos. 

Com o passar do tempo eu fui deixando cada vez mais tempo você com esse cristal e já não ficava tão atenta. Você começou a deixar numa mesinha, numa cadeira, um dia até caiu de leve, mas por sorte não quebrou. Outro dia você até arriscou fazer embaixadinha e olha só, parece que não era tão frágil assim. Talvez tentasse chutar qualquer dia desses e brincar de bola. Quem sabe? Com tudo isso, você talvez tenha esquecido o valor daquilo, sobretudo para mim. 

Um dia vc estava distraído e sem perceber, deixou cair. Dessa vez quebrou. Nem você acreditou, como pode, não quebrou com uma queda, nem embaixadinha, como quebrou de forma tão simples?

Eu sei que você sente saudade e quer que eu diga o mesmo. Acho que sinto falta da certeza no futuro que eu achava que tinha com você. Eu sei que com essas perguntas você busca algum tipo de certeza que há sentimentos, que o ajude, mas é que eu não tenho que te dar certezas e segurança quando você as tirou de mim. A gente teria muito custo com nossos sonhos? Sim, mas estaríamos juntos. O mundo caminha para o fim? Sim, mas estaríamos juntos. A gente está envelhecendo? Sim, mas estávamos juntos. E agora, agora não há certezas para o futuro. Você espera que eu sinta saudade mas eu sinto... Vazio. 

Um imenso vazio.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

33 anos

Domingo foi meu aniversário, eu não pensei em comemoração nem nada do tipo. Pensei em ir nunca cafeteria charmosinha, a noite comprar algumas bebidas e relaxar em casa, afinal eu estava de plantão no dia anterior e geralmente me sinto energeticamente esgotada no pós.

Só não esperava passar num velório. Mas foi isso que aconteceu.

Uma amada tia-avó se foi, levando muita sabedoria, bondade e fé. Considerando que tenho estado entre vida e morte constantemente devido ao meu trabalho nos últimos anos, achei um simbolismo interessante celebrar mais um ano de vida, lembrando que a morte pode estar logo ali. E não falo isso com pesar ou morbidez, mas sim como um lembrete do quão precioso é nosso tempo aqui, o quanto sou afortunada em gozar da vida com saúde e consciência do privilégio de estar aqui.

Tem uma música de Raul Seixas que diz:

"Vou te encontrar vestida de cetim 
Pois em qualquer lugar esperas só por mim 
E no teu beijo provar o gosto estranho 
Que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar 
Vem, mas demore a chegar 
Eu te detesto e amo morte, morte, morte 
Que talvez seja o segredo desta vida"

E o que seria de nossa vida sem o lembrete que ela acaba? Que valor daríamos a essa passagem se ela fosse eterna? No velório da minha tia-avó eu celebrei em mim a vida dela, lembrei de suas histórias, sua presença e honrei a forma que viveu e morreu. No velório da minha tia-avó revi pessoas que há muitos anos não via, consolei parentes e recebi abraços e felicitações por mais um ano. Fiquei a maior parte do tempo imersa em meus pensamentos e memórias. 

Trinta e três anos, tanta coisa aconteceu nessa caminhada e parece que ela está só começando, Ainda vou fazer muitas coisas e sonhar novos sonhos e viver outras vidas nesta mesma vida, até que meu chamado venha.

Jesus morreu aos 33 e eu de alguma forma morro para recomeçar, iniciar um novo ciclo da minha jornada. Na numerologia, o número 33 é um número Mestre, conhecido como o "mestre professor" ou "Mestre do amor e da cura" (muito a ver com Jesus, né?!). Ele representa o potencial máximo de altruísmo, compaixão e iluminação espiritual, combinando a criatividade do 3 com a capacidade de cura e serviço.
É isso que me espera? Abraço com coragem e empolgação a nova etapa, com todos os desafios e belezas que a acompanham.

"É tão bonito quando a gente pisa firme
Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos
É tão bonito quando a gente vai à vida
Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração"
Caminhos do coração - Gonzaguinha