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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Um sonho dentro de um sonho

Eu lembro que estava num sonho bom, passeava por um apartamento que mais parecia um hotel, e era meu. Eu estava na presença de pessoas queridas e tinha festa. De repente eu estava num carro bem esquisitinho (como aqueles de palhaço) dirigindo de forma improvável pelas ruas e percebi que tinha liberdade para fazer o que quisesse, como se soubesse que era um sonho. Estava divertidíssimo.

Ao sair do carro entrei num prédio e começava a tocar uma música muito boa, animada e que eu não lembro qual é (mas era algo como Viva la vida de coldplay, com aquele energia crescente sabe?! Ou talvez Everybody wants to rule the world, de Tears for fears, só que mais dançante e rápida) eu entrava dançando, animada, interagindo com todos que apareciam em meu caminho. Era como se fosse a protagonista de um clipe. Lembro de abrir várias portas e cantar e dançar junto com pessoas aleatórias. Na última curva eu lembrava que já tinha vivido a cena que viria a seguir e assim que ela entrou no ambiente, como se fosse mais uma integrante animada e dançante do meu clipe, eu desmoronei.

Ela estava linda, alegre, redondinha, sorridente e dizia que me amava com os olhos. Era minha avó. Eu senti uma dor tão grande que a música parou e eu me pus a chorar, de joelhos. Acordei aos prantos. Meu inconsciente nunca foi tão cruel. Vê-la daquela forma constatou que era um sonho foi triste demais vê-la tão maravilhosa e saber que isso nunca mais acontecerá. O Alzheimer tem a consumido e tudo que vejo nela hoje em dia é um olhar perdido e suplicante.

Minha avó sempre foi enérgica, calorosa, amorosa e agitada. Vovó não parava quieta e queria sempre nos ver bem: vestidos, alimentados, brincantes. Eu amava as comidas que ela preparava, quando estava fazendo faculdade fora que chegava na cidade, era certo ela preparar o frango de panela com macarrão que eu amava e ai de mim se não fosse. Sempre que falava com ela, perguntava: "Fia, alguém já disse que te ama hoje?" eu respondia que não e recebia uma declaração de amor. Amor mútuo. Amor esse que ficou gravado em mim para sempre, tatuado em minha pele, como uma forma e externar nossa troca, para que ela exista não só na minha memória: sempre que explico a frase, espalho o amor da minha avó e isso me faz sorrir.

Sonhar com ela tão feliz e no próprio sonho ter a consciência que era uma lembrança, que ela não era mais aquela pessoa, que está doente, atingiu um grau de tristeza que há um tempo eu não experimentava. Algo profundo, forte. 

Escrever esse texto foi sentir tudo de novo e as lágrimas novamente correram por meu rosto. O pior é que ao acordar chorando com o sonho veio também um outro pensamento que me veio no plantão passado. Será que o sonho foi algum tipo de sinal?


Estão comendo o mundo pelas beiradas
Roendo tudo, quase não sobra nada
Respirei fundo, achando que ainda começava
Um grito no escuro, um encontro sem hora marcada

Ontem eu tive esse sonho
Nele encontrava com você
Não sei se sonhava o meu sonho
Ou se o sonho que eu sonhava era seu

Um sonho - Nação Zumbi


Cacos de vidro

            Está tudo uma confusão e não há tempo para organizar. As coisas precisam de posicionamento, ação, resolução e eu estou procurando a bolsa, a chave, o par da meia. Sinto-me perdida no rolê, me propus a fazer coisas grandes a agora não me sinto capaz de nem 10%. Uma farsa.

E é tão louco pensar dessa forma, quando, olhando de fora eu estou na minha melhor fase: Estabilidade e reconhecimento profissional, finanças em dia, bons amigos, autocuidado e hobbies em dia. E o que acontece? Estou perdida. Estou correndo, correndo e nem sei para onde.

O que eu estou procurando? Onde eu quero chegar? Qual o objetivo disso tudo?

Ao mesmo tempo, quando eu não estou correndo no meio profissional, eu me desligo de tudo, vivo como se o mundo fosse acabar nas próximas horas, esqueço razão, bom senso e sentido de autopreservação.

Estou perdida e vazia. E sei fingir muito bem, de modo geral, sou funcional e não há que diga que não estou ótima. Mas eu sei o que é andar nesse salto 15 e especificamente hoje eu se sinto pior até mesmo para disfarçar. Sinto o peso das responsabilidades que acumulei porque eu quis e fui atrás e agora me sinto sem energia para sustentar.

Quero dias alegres, alegria que fique um pouco, para além dos excessos do fim do mundo.


No domingo, eu li sua carta imensa contando tudo
A primeira vez que eu soube o que pensa, soube de tudo
E fiquei como quem não vive no mundo
E daí esse meu silêncio profundo
Eu senti que a tristeza ia chegar e mudar
Ia tomar meu coração
(...)
Eu senti que a tristeza ia chegar e mudar
Ia tomar meu coração
(...)
Apesar do coração, ainda 'to vivo
Nunca vi tanto poder em caco de vidro (uh)
Já 'tá passando a chuva, agora é só o sereno (só o sereno)
Eu posso ser a cura, já que sou o veneno (sou o veneno)
Eu não 'to me explicando, eu 'to me entendendo (entendendo), oh
Isso que tu não entende

Cacos de vidro - BK


quarta-feira, 25 de março de 2026

Tá nas bases

Hoje sai de casa com muitas missões, muitas burocracias a resolver e umas coisas para comprar. Tratei de vestir uma roupa coringa e confortável (aquele macacão verde lindo!), arrumei o cabelo e fiz uma maquiagem bem básica. Olhei no espelho e aprovei o resultado, lembrei da última vez que usei esse macacão e o sorriso sumiu por alguns microssegundos.

Enfim, segui com minhas coisinhas e enfim chegou o momento das compras. Gosto muito da sensação de gastar meu suado dinheiro. Não por simplesmente gastar, mas por ter condições de comprar o que quero/preciso na hora da minha vontade/necessidade. Entrei em uma loja, bem serelepe, com óculos escuros, fone no ouvido ouvindo Metal contra as nuvens, da Legião Urbana e bolsa pendurada até que uma (des)querida confundiu-me com uma funcionária (queria saber onde tinha alguma coisa). Mesmo eu estando de óculos, bolsa e com uma roupa que nada tinha a ver com o uniforme da loja. 

Sabe o nome disso? Racismo estrutural. Não foi a primeira, nem a última. Mais um “caso isolado”.

O racismo estrutural é uma forma de descriminação enraizada na sociedade que normaliza desigualdades raciais através de práticas políticas, econômicas, jurídicas e sociais. Ele funciona como a engrenagem base da organização social, favorecendo um grupo racial e prejudicando outros, sendo um fenômeno coletivo e sistêmico, não apenas individual. Assim disse o Google. Na prática, isso diz que corpos negros são vistos como subservientes com muita naturalidade. A tal mulher provavelmente não pensou antes de perguntar pelo item que buscava no impacto da frase, não pensou em porquê achou que eu, com aquela skin, poderia ser uma funcionaria disponível a servi-la. 

Eu já passei por isso outras vezes, nem teria como contar quantas, mas essa foi a primeira vez que eu respondi. Quando ela perguntou eu estava em movimento e não parei para responder, mas disse "não, estou com bolsa e de óculos, tenho cara de está trabalhando aqui?" não olhei para trás nem esperei resposta, mas espero ter devolvido o desconforto.

Espero que da próxima vez (por que sempre tem a próxima) eu consiga responder melhor. 

Espero que demore mais até a próxima vez.

Espero que meus filhos não passem por isso (ou sejam melhores de resposta do que eu).


"(...) vi meu povo se apavorar
E às vezes eu sinto que nada que eu tente fazer vai mudar
Autoestima é tipo confiança, só se quebra uma vez
Tô juntando os cacos (...)
Sou antigo na arte de nascer das cinza
Tanto quanto um bom motorista é na arte de fazer baliza
Eu tô na arte de fazer"
Corra - Djonga 


Com a fé de quem olha do banco a cena
Do gol que nós mais precisava na trave
A felicidade do branco é plena
A pé, trilha em brasa e barranco, que pena
Se até pra sonhar tem entrave
A felicidade do branco é plena
A felicidade do preto é quase

Olhei no espelho, Ícaro me encarou
Cuidado, não voa tão perto do Sol
Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei
O abutre quer te ver de algema pra dizer: Ó, num falei?!

No fim das conta é tudo Ismália, Ismália
Quis tocar o céu, mas terminou no chão

Ela quis ser chamada de morena
Que isso camufla o abismo entre si e a humanidade plena
A raiva insufla, pensa nesse esquema
A ideia imunda, tudo inunda
A dor profunda é que todo mundo é meu tema
Paisinho de bosta, a mídia gosta
Deixou a falha e quer medalha de quem corre com fratura exposta
Apunhalado pelas costa
Esquartejado pelo imposto imposta
E como analgésico nós posta que
Um dia vai tá nos conforme
Que um diploma é uma alforria
Minha cor não é um uniforme
Hashtags PretoNoTopo, bravo!
80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo
Quem disparou usava farda (mais uma vez)
Quem te acusou, nem lá num tava (banda de espírito de porco)
Porque um corpo preto morto é tipo os hit das parada
Todo mundo vê, mas essa porra não diz nada

Olhei no espelho, Ícaro me encarou
Cuidado, não voa tão perto do Sol
Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei
O abutre quer te ver drogado pra dizer: Ó, num falei?!


No fim das conta é tudo Ismália, Ismália
Quis tocar o céu, mas terminou no chão
Ter pele escura é ser Ismália, Ismália
Quis tocar o céu, mas terminou no chão
(Terminou no chão)

Primeiro, sequestra eles, rouba eles, mente sobre eles
Nega o Deus deles, ofende, separa eles
Se algum sonho ousa correr, cê para ele
E manda eles debater com a bala que vara eles, mano
Infelizmente onde se sente o Sol mais quente
O lacre ainda tá presente só no caixão dos adolescente
Quis ser estrela e virou medalha num boçal
Que coincidentemente tem a cor que matou seu ancestral
Um primeiro salário
Duas fardas policiais
Três no banco traseiro
Da cor dos quatro Racionais
Cinco vida interrompida
Moleques de ouro e bronze
Tiros e tiros e tiros
Os menino levou 111 (Ismália)
Quem disparou usava farda (meu crime é minha cor)
Quem te acusou nem lá num tava (eu sou um não lugar)
É a desunião dos preto, junto à visão sagaz
De quem tem tudo, menos cor, onde a cor importa demais

"Quando Ismália enlouqueceu
Pôs-se na torre a sonhar
Viu uma Lua no céu
Viu outra Lua no mar
No sonho em que se perdeu
Banhou-se toda em luar
Queria subir ao céu
Queria descer ao mar
E, num desvario seu
Na torre, pôs-se a cantar
Estava perto do céu
Estava longe do mar
E, como um anjo
Pendeu as asas para voar 
Queria a Lua do céu
Queria a Lua do mar
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par
Sua alma subiu ao céu
Seu corpo desceu ao mar"

Olhei no espelho, Ícaro me encarou
Cuidado, não voa tão perto do Sol
Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei
O abutre quer te ver no lixo pra dizer: Ó, num falei?!

No fim das conta é tudo Ismália, Ismália
Quis tocar o céu, mas terminou no chão
Ter pele escura é ser Ismália, Ismália


Ismália - Emicida

segunda-feira, 23 de março de 2026

Cores

Dia cheio. Acordar cedo, espalhar currículos. Após alguns meses do fim do curso ela precisava de um emprego, As contas já se acumulavam e se não houvesse um saldo positivo em sua conta teria que devolver o apartamento e voltar para a casa dos pais. Era o fim, atestado de derrota. 
Vestiu sua roupa mais social e saiu. Não que tenha sido difícil, afinal ela só tem um par de roupas desse tipo, na maior parte do tempo prefere roupas alternativas e confortáveis. Passou a manhã inteira entregando suas qualificações digitadas e devidamente impressas para pessoas de setores burocráticos que se quer sorriam, pessoas automáticas que poderiam parecer qualquer coisa, menos pessoas.
Ao fim do dia estava suada, cansada e com fome, mas ainda conseguiu sorrir ao lembrar das histórias que uma senhorinha dividiu com ela no ônibus. Não sabia porquê, mas desconhecidos adoravam conversar com ela, como se precisassem falar com alguém que não as julgue, alguém de fora de suas vidas. Como uma boa ouvinte e observadora do comportamento humanos, guardava seus fones e dava uma de psicóloga.
Ainda rindo da briga que a senhora contou que teve com uma vendedora, entrou na padaria e na fila do queijo notou alguém rindo também em sua direção. Ficou imediatamente sem graça por aquele estranho ter notado sua cara de (provavelmente) lerda em meio a um devaneio. Mais que isso, o dito cujo era o novo vizinho dela e nunca tinham se falado. Ele quebrou o gelo com o bom e velho "Oi" acompanhado de um sorriso devastador "será que ele usou aparelho? Aposto que fez clareamento", pensou ela. Ele se ofereceu para levar suas sacolas e o que mais ela poderia fazer se não aceitar estando tão cansada e de saltos? 

(Escrito em 18/06/2018 e ficou aqui esquecido, provavelmente tinha uma continuação que nunca veio. Vou publicar para que não seja esquecido de novo. Quem quiser dar ideia de continuação, comenta comigo!)

Membro Fantasma

Socorro
Não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir
Socorro
Alguma alma, mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor!
Uma emoção pequena, qualquer coisa!
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Lembrei dessa música do Antunes outro dia, tem quase 30 anos que foi lançada, mas nunca me fez tanto sentido. Eu gostava, ouvia mas só agora eu de fato a sinto. Com tudo que tem acontecido, sinto esta com dificuldade de expressar e perceber sensações e sentimentos. Como se em uma realidade paralela eu estivesse sentido o baque de um término, em outra realidade tenho que me dedicar ao meu novo trabalho, sem perder de vista o trabalho que já tinha antes e me preparar para um concurso muito criterioso. São situações adversas que não se conversam e eu preciso escolher uma para viver. Claro que estou indo na via do trabalho e dos meus projetos, mas sinto está distante de uma parte de mim mesma, que sofre, que não está sendo devidamente acolhida por mim mesma. 
Mas eu não vivo em mundos paralelos. Só me é disponibilizado este mundo, essa vida e essa realidade onde tudo ocorre ao mesmo tempo, sem pausa, sem vírgula e sem horário pro chorinho que se acumula num ritmo de conta-gotas.
É uma sensação estranha, um vazio difícil de explicar. Algo me foi tirado, não, arrancado, de forma brusca, sem anestesia, sem preparação. Lembra-me a síndrome do membro fantasma,, muito relatada por pessoas que sofreram amputação de algum membro. Essas pessoas sentem o membro, dor no local que não mais existe, formigamento. O cérebro continua processando sinais da área ausente, gerando essas sensações reais de dor, queimação e presença, ainda que ausentes.
No meio de tudo isso, a sensação que me dá é que minha cabeça é um grande carrossel, que não para de girar, só que gira cada vez mais rápido pois a alavanca quebrou. Gira, gira, mais rápido, mais rápido. Além da questão emocional, do misto de sensações em aprender e ensinar, das obrigações, existe ainda a burocracia, a parte chata. Papel, banco, decisões palpáveis, e por mais que se diga "pense no que você sente", "no que você quer", eu também tenho que pensar na burocracia que esta sentadinha no meu colo esperando a vez dela de ter minha atenção. E o carrossel não para de girar.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Primeiro dia de aula

Esse mês as aulas recomeçaram, um semestre inteiro de oportunidades e novos conhecimentos. E eu voltei para a sala de aula, porém dessa vez não sou só aluna. Sou professora, e pensa numa viagem! Tem sido uma experiência interessante e também desafiadora. Tenho me observado e aprendido mais sobre mim mesma. Eu falo rápido, simplifico muito, sou exigente. Tem sido um grande exercício de autoconhecimento, como tudo que eu faço e me envolvo, tudo diz sobre mim também.

Dar aulas exige que eu estude mais, leia e aprenda sobre muito mais do que o que eu planejo falar na sala de aula, pois as vezes a dúvida não é necessariamente sobre o conteúdo que ministro. Nunca me sinto realmente pronta para estar na sala de aula e sempre saio com a sensação que posso e preciso melhorar mais. Cobro-me ciente que estou em sala de aula há menos de 15 dias.

Estou cheia de planos, acho que agora o mestrado vem. Gosto da sala de aula, de falar, ensinar, aprender com o processo. Será que um dia me acostumo com o pronome "Professora"?

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

33 anos

Domingo foi meu aniversário, eu não pensei em comemoração nem nada do tipo. Pensei em ir nunca cafeteria charmosinha, a noite comprar algumas bebidas e relaxar em casa, afinal eu estava de plantão no dia anterior e geralmente me sinto energeticamente esgotada no pós.

Só não esperava passar num velório. Mas foi isso que aconteceu.

Uma amada tia-avó se foi, levando muita sabedoria, bondade e fé. Considerando que tenho estado entre vida e morte constantemente devido ao meu trabalho nos últimos anos, achei um simbolismo interessante celebrar mais um ano de vida, lembrando que a morte pode estar logo ali. E não falo isso com pesar ou morbidez, mas sim como um lembrete do quão precioso é nosso tempo aqui, o quanto sou afortunada em gozar da vida com saúde e consciência do privilégio de estar aqui.

Tem uma música de Raul Seixas que diz:

"Vou te encontrar vestida de cetim 
Pois em qualquer lugar esperas só por mim 
E no teu beijo provar o gosto estranho 
Que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar 
Vem, mas demore a chegar 
Eu te detesto e amo morte, morte, morte 
Que talvez seja o segredo desta vida"

E o que seria de nossa vida sem o lembrete que ela acaba? Que valor daríamos a essa passagem se ela fosse eterna? No velório da minha tia-avó eu celebrei em mim a vida dela, lembrei de suas histórias, sua presença e honrei a forma que viveu e morreu. No velório da minha tia-avó revi pessoas que há muitos anos não via, consolei parentes e recebi abraços e felicitações por mais um ano. Fiquei a maior parte do tempo imersa em meus pensamentos e memórias. 

Trinta e três anos, tanta coisa aconteceu nessa caminhada e parece que ela está só começando, Ainda vou fazer muitas coisas e sonhar novos sonhos e viver outras vidas nesta mesma vida, até que meu chamado venha.

Jesus morreu aos 33 e eu de alguma forma morro para recomeçar, iniciar um novo ciclo da minha jornada. Na numerologia, o número 33 é um número Mestre, conhecido como o "mestre professor" ou "Mestre do amor e da cura" (muito a ver com Jesus, né?!). Ele representa o potencial máximo de altruísmo, compaixão e iluminação espiritual, combinando a criatividade do 3 com a capacidade de cura e serviço.
É isso que me espera? Abraço com coragem e empolgação a nova etapa, com todos os desafios e belezas que a acompanham.

"É tão bonito quando a gente pisa firme
Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos
É tão bonito quando a gente vai à vida
Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração"
Caminhos do coração - Gonzaguinha

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Velhinho

 ...e enquanto andava de moto na praia ao fim de tarde, viu uma sombra e o reconheceu: cabelo branco, baixinho, calça social, camisa de botão. Era o vô. E isso a espantou tremendamente, uma vez que ele falecera no dia anterior. 

Afligiu-se em mostrar o que estava vendo ao seu acompanhante, mas o avô, que em vida andava devagarinho, começou a andar rápido, cada vez mais rápido, até que passou a ser um vulto luminoso. A roupa tornou-se mais clara, tornou-se mais alto, jovem. Por fim correu até sumir. Estava livre.

Havia se libertado da dor, dos aparelhos, das amarras, do hospital. Estava livre da doença. Era o fim da solidão e confusão mental.

Ela fora dormir pedindo a Deus consolo por sua perda e recebeu esse sonho como presente e seu coração parou de chorar, pelo menos naquele momento.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

O que eu quero antes dos 30 - 2 anos depois

Há pouco mais de 2 anos eu e uma amiga escrevemos o que desejávamos ter ou fazer na vida quando chegássemos a casa dos 30 anos. Pois bem, hoje estamos na casa dos 27 e, revendo a lista vi que muita coisa mudou, muitas coisas não realizei e outras não são mais prioridades. Fiquei pensando como as coisas mudam e a gente ainda assim tenta planejar e com prazo de realização. A realização pode vir de imediato ou tardiamente, agora acredito que tudo esta de acordo não com nosso pensar mas com a intensidade de nossa fé e perseverança em vários aspectos além do simples querer.
Diante de tudo isso fiz uma nova lista, dessa vez sem prazo e mais realistas (suponho)
Vou deixar registrado aqui para reler futuramente:

01 - Confiar cada dia mais nos planos de Deus
02 - Conseguir pagar minhas contas sem sofrimento
03 - Me organizar para ter lazer em doses necessárias para os dias e semanas
04 - Fazer uma boa viagem anual
05 - Abraçar mais e sempre
06 - Casar e conviver de forma harmônica com nossas diferenças e desafios
07 - Apoiá-lo e encontrar apoio nele
08 - Manter minhas amizades sempre fortes
09 - Está sempre bem para ajudar os outros, mas ter contar com quem contar quando não estiver bem também
10 - Pensar em Iniciar um mestrado
11 - Encontrar na família muito mais harmonia que desavenças 
12 -Trabalhar para ter minha casa cada vez mais aconchegante
13 - Estudar mais e sempre aquilo que gosto e acredito
14 - Escrever mais e colocar isso como um exercício diário, para quem sabe algum dia, fazer um livro

Pensei em mais itens mais seria redundante, tudo em essência esta ai. É  fixo? Não, nunca é.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Estiagem

Faz mais tempo do que eu gostaria de admitir, eu sei.
É amargo dizer mas, após os últimos acontecimentos, achei que escrever seria uma das coisas que amo e que eu não faria mais. Meu lado criativo se fechou e a fonte secou, mesmo tendo muito o que gritar, não conseguia. Nem torto, nem nada, nada mais saia de mim. Era triste sentir tudo acumulando sem um escape decente, com isso eu tive alguns surtos de tristeza profunda, euforia, muitas ideias soltas de uma vez só e nada de constância. Não me fazia bem, eu sentia e doía muito não ter a tão fiel companhia das palavras, minhas ou de outros autores que eu gostava de ler.
As vezes eu achava que me faltava fé, que as coisas precisavam de tempo para se ajustar e eu era impaciente, mas ai eu lembrava que já passei por tantas outras situações, piores até, e sempre pude contar com um bom livro, caderno e caneta. Outras vezes pensei que exigi muito de mim mesma ao dedicar por tanto tempo seguido à produção científica. Enfim, não saberei dizer tão cedo onde esta o X da questão, o fato é: nos últimos dias coisas que eram comuns em outros tempos ressurgiram, trazendo a sensação de algo inédito e me enchendo de uma esperança que eu jã nem lembrava. 
Eu nunca deixei de amar livros e por isso mesmo sempre passeava nas livrarias, admirava nas prateleiras alguns títulos e levava para casa na esperança de despertar a leitura de novo. Isso me rendeu uma estante cheia de livros não lidos em casa. Na última semana, no entanto, despretensiosamente foi avassalada por um livro nas primeiras linhas. Não me contive e levei para casa, em menos de duas horas, devorei. Devorei como a muito não fazia, como se estivesse num deserto e tivesse encontrado um incrível oásis. Era como se tivesse faminta por cada verbo, cada oração, cada jogo de palavras. E estava mesmo, mas só me dei conta do tamanho quando terminei o livro e vi que não lembrava da última vez que tinha lido um livro de uma vez e o quanto eu valorizava leituras instigantes, que me prendiam e me davam muitas ideias e mostravam que eu poderia pesquisar mais sobre alguns temas que traziam. 
Eu conhecia aquela onda quente. Explosão. Processo criativo.
Queria gritar pro mundo todo: Senhoras e senhores, voltei!, mas não era bem assim, não podia me antecipar dessa forma, afinal poderia ser só euforia. 
Peguei aquele livro que desde o ano passado havia iniciado leitura e não terminara. Não era um livro ruim: história envolvente, personagens cativantes, temática central atrativa, descrições detalhadas. Era tudo que eu apreciava em um livro. Ele era bom e eu que não estava tão bem assim. Aos poucos fui lendo e esta noite terminei. Nas últimas páginas eu estava tão emocionada por enfim estar terminando que chorei. Já chorei com outros livros mas dessa vez era diferente, não era pela história mas sim por está conseguindo virar a página, literalmente, desse meu período que apelidei "carinhosamente" de  Idade Média. Muitas coisas ficaram pelo caminho do ano passado para cá, muitas coisas inacabadas, esse livro era uma delas, a representação da minha leitura inexistente. O fim de um dos meus hobbies, uma das minhas válvulas de escape inoperante e aparentemente obsoleta, uma lembrança boa. Concluir esta leitura foi importante e marcante para mim, após tanto tempo, eu precisava disso. Chorei com o coração aquecido, por sentir que aos poucos as coisas vão se ajustando, um passinho por vez, sem afobação. Esse texto veio junto com o sentimento que me encheu, do ser capaz de. Capaz de terminar, capaz de escrever. Capaz. 
Meu bem e amigas, obrigada por sempre me incentivarem mesmo que eu resmungasse que não podia mais. Obrigada por acreditarem mais em mim do que eu mesma. Obrigada por dividirem a fé de vocês comigo quando estou sem.

Esse provavelmente não é o meu melhor texto, mas certamente é um dos importantes. Marca o fim de uma estiagem que eu nunca tinha passado no quesito Escrever. Vou chover ainda, preparar essa terra com paciência e só então florir. Com calma, em paz. 

domingo, 9 de dezembro de 2018

O redator - Zimbra

Eu vi você pulando a minha página
Talvez você só queira ler depois
Não fiz tanta questão de ser direto assim
Talvez você perceba isso depois
Eu sempre fui tratado muito bem
Nos meios dessas linhas que eu já fiz
Seguiam pelas coisas que eu falei
Mas a metade mesmo diz
Que é tudo versificação
De alguma história que eu refiz
Me lembro de ter que explicar
Como é que essas coisas funcionam
Evito de ter que pensar
Que as melhores frases se foram
E não voltarão pro lugar
Pro mesmo rascunho que entrega
Milhares das informações
Que nem todo mundo
Pensei em anotar tudo que você diz
Daria uma bela matéria no jornal
Na parte de entretenimento ou coisa assim
Já que você não chega até o final
Me lembro de ter que explicar
Como é que essas coisas funcionam
Evito de ter que pensar
Que as melhores frases se foram
E não voltarão pro lugar
Pro mesmo rascunho que entrega
Milhares das informações
Que nem todo mundo se apega
Tá tudo bem com você?
Faz tempo que você não escreve
Eu sinto tanta falta de ler
Seus textos fabricados em série
Escreva alguma coisa, por favor, meu bem
E lembra de assinar no fim da folha

sábado, 27 de outubro de 2018

Ansiedade

Os dedos doem pelas unhas exacerbadamente roídas, as vezes sangram, inclusive.
Meu rosto entrega as seguidas noites mal dormidas.
A playlist "Na bad" já triplicou seu número de canções.
As pessoas notam minha boca calada e esse riso amarelo no lugar da gargalhada sempre alta.
O que não como já faz falta nas minhas roupas, cada dia mais vazias de mim.

A mente, outrora ágil e ativa, hoje mal consegue produzir além das frases melancólicas sobre esse tema batido:
Ele, eu, nós.
Fico pensando nas brincadeiras, nos planos feitos e não concretizados, nas viagens que não fizemos, mas vitórias que não comemoramos, nos amigos e familiares que não conhecemos, histórias que não dividimos e tudo isso só me deixa assim, sem cores, com essa palpitação que não me deixa dormir (presença cativa aqui), junto com o aperto no peito, falta de ar... então eu roou mais uma vez as unhas que já não tenho.  

E como explicar que eu quero ficar mas preciso ir?
E como mudar sem nos ferir?
Como continuar sem achar que estamos nos prendendo por medo de ficar sem o outro?
São tantas dúvidas, tantas perguntas sem respostas que eu fico assim, nesse mundo meio cinza pensando em tudo isso que tem a ver com nós.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Merthiolate

A gente não foi a Pipa, Galinhos ou Monte das Gameleiras.
Não fomos a Argentina, Canadá ou Japão.
Não fomos a nenhum casamento de amigos nossos.
Você não me deu um anel de cocô ou de ouro.
Não comemoramos aprovação e posse em algum concurso.
Não comemoramos sua habilitação.
Não conheci sua filha.
Não conhecemos a família distante um do outro ou as histórias que nos fazem.
Tanta coisa não vivemos e queríamos ter vivido que dói pensar e mais ainda se pensar no que ainda poderíamos sonhar. O difícil não é tomar decisões e sim sustentá-las quando se ama, quer bem, se importa. 
Não pense que tá sendo ótimo do lado de cá. Cada pensamento nostálgico, seja do passado ou do futuro, é como se fosse Merthiolate (dos meus tempos de infância obviamente) num arranhão dos mais enormes que já consegui: Arde e faz chorar.

sábado, 20 de outubro de 2018

A Raiva que deu

Estávamos deitados numa rede naquela sala pequena pós almoço de domingo. Não dava para nos mexer muito pois minha cabeça poderia bater na estante, as costas dele no sofá... então ficamos quietinhos, aguardando o tão esperado momento.
A semana toda, duas semanas da verdade, caiu de mim uma venda que eu mesma havia posto e, ao me dar conta disso não me senti confortável com tudo como estava. As coisas precisavam mudar e tinha quer ser logo se não eu mesma me mudaria. Fiquei dias e dias pensando na vida, distante, estranha. Ele estava com muito receio, prevendo o fim assim como eu, que tentava ao máximo encontrar um momento certo, as palavras certas, e já era domingo de tarde e nada havia sido dito. Em poucas horas eu viajaria e nada mudaria.
Ele me beijou e depois de um tempinho, eu cedi ao beijo e foi bom mas começou e me subir uma... uma raiva, e eu comecei a bater nele com uma almofada (e não só ficou por ai, boatos que teve até paus e pedras) por me fazer gostar tanto mesmo sendo tão diferentes um do outro. Ele, por sua vez não estava entendendo nada e só conseguia rir, porque eu estava engraçada (já ouvi isso outras vezes, que quando eu estou irritada fico engraçada pois começo a falar alto, gesticular demais...)
Na verdade, minha raiva maior era de mim mesmo, por estar numa situação desconfortável e não conseguir mudar ou sair. Não gosto de me sentir vulnerável e gostar dele faz isso comigo, me deixa de uma situação que eu não aceitaria de forma alguma em outros tempos, uma eu de uns anos atrás. E o que fiz com essa raiva? Dissipou mas a venda caída me deixa a cada dia um pouco mais desgostosa com tudo isso e as possibilidades de futuro com tamanhas diferenças.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Cores e concreto

Eu fui dormir com a cabeça cheia. Muitas ideias, sonhos, projetos e o duro baque da realidade "não da tempo", "não tem grana para isso", "vai ter que esperar", "onde está seu juízo, criatura?"
Foi muita coisa para um único dia e eu resolvi não conversar com ninguém, ficar na minha um tempinho (já alugo muito meus amigos com minhas neuras) e então apaguei.
O dia começou e apesar do peso, o lado sonhadora falou mais alto. Comecei a cogitar ideias, conversei com minha mãe e ela, que sempre espera mais de mim, ficou preocupada com o tanto de ideias boas e grandes, oportunidades que estão me surgindo e disse "apoio tudo que você quiser fazer, mas não se cobre para dar conta disso tudo. Não se mate, olhe por usa saúde, sua alimentação". Ok, ponto para ela, nessa altura no ano e o tanto de coisa que deve ser finalizado em outubro e até dezembro, qualquer pessoa pode duvidar da minha capacidade. Eu mesma, inclusive.
Até ai, tudo bem mas falar com ele foi o que me deixou assim, o que me botou aqui para escrever e tirar isso de mim (só assim volto para os projetos). No começo ele até tava na minha vibe, com ideias e tal, mas rapidamente a coisa muda quando ele diz (usando fala mansa e tentando amenizar as palavras) que eu estou fazendo muitas coisas e não me especializando em nada, que assim eu nunca vou ser boa em uma coisa, não dar o meu melhor em algo porque divido meu foco em muitos assuntos.
Eu, que estava verborrágica na hora do almoço, calei. E estou assim ainda, em poucas palavras, pensando no que está acontecendo comigo, com esse tal relacionamento. Eu não sei, mas não é de hoje que tenho receio em dividir minhas coisas com ele, que é tão "realista" e um tanto pessimista também. Não vibramos na mesma frequência. Eu, que tanto sonho fiquei assim, com essa sensação estranha de uma tristeza comigo mesma por me questionar sobre o que estou fazendo, por ter conversado sobre minhas metas de vida as quais obviamente ele não tem visão para visualizar esses sonhos comigo e, principalmente o que nos prende um ao outro.
Pode ser a TPM atacando? Pode, mas não acho que seja só isso.


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Nota Mental: Não dividir meus sonhos com quem não sonha comigo. Não ter filhos com gente negativa. Pensar muito antes de casar (tipo, muito mesmo. Aliás, se puder nem casar! Obrigada, de nada).

sábado, 25 de agosto de 2018

A luz que o outro traz

Acordei já me sentido cansada, assim como ontem, anteontem, semana passada... Os dias não têm sido como eu imaginava. As vezes me pergunto se estaria me sentindo assim se tivesse feito outras escolhas, sei lá, nem vale muito a pena né?! É aqui onde estou agora.
Saio cedinho e as alegrias do dia ainda estão em ajudar os outros, ainda bem que posso, mesmo que o tanto que eu faça não seja reconhecido e eu seja tratada com mais desdém que uma aluna de primeiro período e não como a profissional que me esforço para ser.
Fiquei feliz que esse dia chegou, cheio de atividades externas, o que me proporciona sair daquele ambiente que me desanima. Mesmo tento um turno lá pelo menos eu estaria bem ocupada dessa vez.
Cheguei para meu atendimento no horário habitual, organizei minhas coisas, vesti o jaleco e esperei os prontuários chegarem. Enquanto não vinham, observei a sala. Um espaço de mais ou menos 3m², teto alto, paredes pintadas de amarelo com várias partes caindo, deixando transparecer o branco de uma tinta anterior e cheias de infiltrações. A iluminação também não é muito boa e há um cheiro de mofo e insetos quando ligo o ar condicionado (antigo, barulhento e que pinga dentro da sala), o que deixa o ambiente pouco confortável até mesmo para mim que mal noto o lugar hoje me dia. Acho que me habituei. 
As cadeiras são antigas, de metal, pintadas em um tom marfim e se arrastadas fazem um barulho bem irritante. A mesa á minha frente tem um tampo de granito cinza e é instável, de modo que se eu não me apoiar corretamente quando for escrever ela fica pendendo para um lado e para outro. Por mais que eu soubesse (ou achasse que soubesse) da realidade da atenção básica no país, não imaginava que estaria numa lugar assim. Dei mais uma rápida olhada, suspirei e decidi que já era hora de começar.
O primeiro caso foi uma senhorinha fofa, com cara de vó que faz bolo e crochê pros netos, sabe?! A consulta foi proveitosa pois vi nela vontade de mudar e permissão para que eu possa ajudar e isso vai me dando doses de alegria, por saber que estamos plantando uma boa sementinha ali, que o tanto que estudei e estudo vai servir para dar qualidade de vida a alguém que pouco conheço mas me importo.
Parcialmente revigorada, chamo o segundo paciente do dia, e ai vem ele. Mal sabia o que me esperava: um rapaz educado, inteligente, de 6 anos, acompanhado por sua mãe. 
Ele usava um óculos com armação estilosa, tipo de nerd e estava todo arrumadinho. Uma graça. Contou-me sua história muito bem e sozinho, conversava bem e eu já estava animada com aquela criança. Sabe, materno-infantil é uma área que eu gosto bastante e pretendo seguir; atender crianças me faz entrar num outro modo da minha profissão, no qual eu tento deixar essa criança o mais confortável possível, não usado palavras difíceis, brincando e respeitando suas preferencias dentro do possível para exercer meu papel.
Em determinado momento a mãe me contou que ele havia comentado em casa que, caso eu o restringisse de algo que ele gosta muito, não ia querer me ver mais e, por mais que fosse algo que eu não indico, era algo que poderia ser mantido por enquanto. Com isso ganhei a confiança do rapaz a minha frente. Ponto pra mim.
Terminei minha avaliação, sondando o que ele gostava e não gostava e fiz alguns acordos, tentando melhorar o que ele gostava. Ao final ele parou, solenemente, e disse: Tudo bem, eu vou fazer tudo isso que você pediu, estou fazendo um juramento com você." Nesse momento ele estendeu a mão direita com quatro dedos flexionados, mantendo apenas o mindinho estendido. Sim, ele estava fazendo um juramento do dedinho (aliás, do mindinho, como ele mesmo me corrigiu) comigo.
Aquilo me pegou de surpresa. Aquela inocência e seriedade que ele estava depositando no nosso momento me desconcertou de um jeito que eu não estava preparada, só em lembrar sinto as lágrimas arderem nos olhos. Sabe quando você esta fazendo um esforço colossal para se manter firme e vem alguém sorrindo e diz algo que lhe conforta de algum modo? Foi tão revigorante, tão belo, mesmo naquela sala de pouca ambiência, mesmo no local que eu pouco sou reconhecida pelo meu trabalho, ali com o dedinho estendido aquela criança brilhou. Brilhou de um jeito que na simplicidade (para muitos) do seu gesto foi a luz que eu precisava e não sabia, ou sabia e fingia que não precisava por não saber onde encontrar.
E quantas pessoas a gente encontra disposta a iluminar nossos dias, não é?! Quantas vezes a gente corre da luz com medo de cegar, nos acostumamos a sofrer calados ou reclamar sem ação, sem tentar mudar.
Crianças são a representação do recomeço, esperança, são verdeiras, tão e transmitem sinceridade. Nos últimos dias eu me encontrava num estado de cobrança e autocobrança frequente, pensando no futuro e me sentindo inerte, sem certezas. Tenho me desgastado com situações que me fazem mal e por mais que eu tente não pensar, hora ou outra elas vêm. Momentos como esse, com essa criança de 6 anos, que durou menos de um minuto, mudou minha energia e eu duvido que em sua inocência ele soubesse que poderia tanto com aquele dedinho solene.
Segurei-me para não chorar ali, mas em casa me permiti senti, deixar ir o que me incomodava e não merecia estar mais em mim. Fiz um juramento comigo mesma: lembrar daquele momento ou similar, quando me sentir esgotada. Buscar pessoas que transmitam luz e levar aos outros também. Estar entre iluminados nos afasta das sombras e reacende o caminho que vez ou outra some.
Rapazinho, muito obrigada por confiar em mim e me relembrar do bem que uma criança pode fazer. Já estou ansiosa por sua próxima visita.

"Vamos fazer o juramento do dedinho mindinho

Juntar o meu mindinho com o seu mindinho 
Então fechou o trato tá feito."

Mercúrio em Peixes

Depois que eu comecei a estudar astrologia passei a encontrar um autoconhecimento que eu nem sabia que poderia existir nos astros. Quadraturas, sinastria, mapa astral, evolução, revolução solar, casas, planetas... é tanta coisa nesse meio que as vezes me perco, viajo.
Um dos aspectos que achei mais interessante no meu mapa, até agora, foi esse mercúrio logo em peixes, tudo fez sentido depois que o descobri em mim. Mercúrio fala sobre raciocínio, comunicação, tem um quê de lógica e racionalidade. Peixes é da água, pura emoção, vai do 8 ao 80 em segundos. Eis o meu racional: cheio de uma emoção visceral.
Eu faço, entendo e falo coisas com muito mais emoção do que precisaria ou deveria. Não significa que eu choro ou escandalizo, mas eu sinto, sinto muito. Tudo. Se eu leio um livro eu imagino cada detalhe descrito; se ouço uma música eu imagino o contexto que foi escrita, a sensação de quem escreveu e quem serviu de inspiração; se alguém me conta uma situação que passou eu me vejo naquele lugar ou consigo visualizar perfeitamente aquela pessoa lá; eu tenho imaginação aguçada e as vezes me ponho em situações hipotéticas e consigo sentir dor, até mesmo física. 
Empatia eu tenho, e muita, nem queria ter tanta pois acabo me envolvendo em histórias que nem me cabem, não consigo ver um problema e não querer ajuda, não me preocupar. 
Mercúrio em peixes é confuso pois, o que era para ser razão é emoção que não se contém. Quando eu lembro de um fato o que vem a minha mente primeiro é o que eu senti ali, se foi divertido, lembro dos cheiros, das pessoas... Não me pede para contar algo pb, eu gosto de cores, vida. Vivo numa intensa contradição entre enfeitar o mundo com palavras e formas inspiradoras de o ver e a realidade cinza que nos cerca. É difícil sonhar aqui, sabia?! Por isso eu vivo me ausentando, viajando pro meu mundinho que funciona no seu próprio tempo, bem aqui na minha cabeça, basta eu olhar pro nada por dois minutos e já estou lá, caçando a mim mesma, numa busca sem fim.
Isso pode ser bom ou ruim, depende do momento. 
As vezes me frusto quando não entendem que as coisas são mais do que preto no branco, quando não entendem minha inquietação com o que não é o X da questão, quando tento explicar que vejo que vejo as coisas de forma bem mais ampla que esse pontinho para o qual todos apontam e é obvio, então desisto, canso e fujo.
As vezes a gente tem que tá aqui, mas insiste em fugir.
Eu me refugio na minha mente e nas palavras que escrevo ou leio. Na minha bagunça eu me perco e me acho, me organizo no meu caos. Cresço nos conflitos que só eu vejo e sinto. Na arte eu me fico à vontade, todas começam de uma viagem do artista.  
Por ser movida a emoções minhas certezas são meio instáveis, dependem muito do que estou sentido, dos meus dias e essa é uma característica que eu não gosto tanto mas é bem forte no meu comportamento, no que me faz ser quem sou. Meu instinto também é muito forte, e eu posso me fazer de doida, mas sei que ele esta certo, quase sempre está mesmo que eu não queira. 
Mercúrio em peixes me joga numa viagem da imaginação no terreno da razão, do sentimento no racional, do abstrato no concreto. É doido, instável, entranho, belo, confuso, inspirador e fascinante. É multiplicar tudo, potencializar o ponto, a vírgula e a exclamação. 
Exclamar cada sentimento. 
E sentir tudo que nem sempre é sentido.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Parto (e não sei se volto)

Esse não será um texto fácil de parir.

Eu tentei ficar.
Desde o começo eu tento.
Hoje acho que não consigo mais, não é justo conosco.

Oi, chegou bem? Já tá deitado? Cá estou no meu antigo quarto sem sono, acho que não deveria ter tomado aquele café forte... agora estou aqui sem ter muito o que fazer e inevitavelmente penso em nós e nesse futuro tão mais incerto.
Desde aquele dia despertaram em mim dúvidas que eu só senti no começo de tudo, coisas que ignorei para poder continuar o que nem tínhamos ainda. Fechar os olhos ajudou muito a chegarmos até aqui mas, não sei se posso continuar com eles assim, ainda mais quando você fala em casamento. Casar é um ato tão sério, e que envolve muito mais gente que apenas dois, que até pouco tempo atrás eu nem ousava pensar sobre. Quando você começou eu surtei pois não conseguia nos ver nessa posição e não entendia porque já que o amo, isso é uma consequência óbvia do amor, né? Talvez não devesse ser. Começo a ver que amor é muito importante mas só ele não basta para manter duas pessoas juntas para sempre, há outros aspectos tão importantes quanto: valores, gostos, opiniões, religião, hábitos, hobbies... quando mais pontos em comum mas fácil seguir a relação. A vida já é tão difícil, o mundo já anda tão complicado, porque complicar mais?
Se eu algum dia casar, quero que seja com alguém que eu me sinta à vontade para falar sobre tudo sem que haja uma briga depois; quero não ter restrições de temas porque sei que não vamos a lugar nenhum com o debate; quero que tenha opiniões parecidas com as minhas, até porque, se vierem filhos, como vai ser? Eu não quero filhos que pensem que discussões raciais ou feministas são mimimi; não quero ter que chorar sempre com minhas amigas porque a pessoa que “está” comigo não consegue me entender e dar o suporte que preciso.
Sabe, e isso tudo vale para você também. Você precisa de alguém que fique bem com você, uma amorosa, carinhosa, que vá para a igreja junto, sonhe em casar e ter uma dúzia de filhos. Por mais que a gente se ame seria egoísmo seguir sem questionar esses pontos. Eu não gosto de seus posicionamentos sobre questões que julgo importante e você não tem que mudar por mim, até porque isso está enraizado em você e eu não posso mudar isso.
Tentei de te trazer para minha vida e entrar na sua. Tentei me entregar com tudo que posso, das qualidades aos defeitos, das histórias boas às ruins, do corpo a mente. Por mais que seja bom, e realmente é, não é o suficiente para me manter segura e bem. Eu sempre fico com isso martelando na minha cabeça e é tão perturbador!
Eu não sei o que vamos fazer com isso, mas sei que não dá para seguir em frente com esse tanto de sirene e alarmes de segurança apitando em mim, não é bom para nenhum de nós dois continuar com isso ressoando e lá na frente não ser mais suportável. Não da p empurrar com a barriga ou fechar os olhos, não quero mais fazer isso e nem posso. Não poderia ter feito mas já está e agora... E agora?


P.S.:Um pequeno esboço desse texto foi escrito e esquecido há muito tempo e achei que nunca o concluiria pois as coisas fluíram entre nós. Fiquei triste em vê que ele era válido.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Casa

Acordei no horário habitual, li algumas notícias e levantei para me cuidar para ir pro trabalho e resolvi caprichar um pouco, só para chegar diferente. 
Coloquei uma playlist que gosto e deixei no aleatório, até que tocou aquela música, aquela, e me trouxe a discussão de ontem com meu namorado por causa da minha mãe, da discussão com ela há alguns dias, e do tempo ruim.
Trata-se de uma música cristã que questiona Deus como pode nos amar tanto mesmo sendo o que somos. Ela sempre me emociona muito e hoje não foi diferente, fui as lágrimas.
Lembrei do tempo que frequentava casa dEle como visitante, claro. Nunca foi minha morada também. Lembro que no tempo ruim eu gostava de ir lá, orava, chorava, cantava e me sentia bem, preparada para a semana pelo menos. Minhas válvulas de escape já não eram suficientes e eu me sentia uma senhora de 89 anos quando tinha apenas 15, 16, cansada como se carregasse o mundo nas costas (e era mais ou menos isso mesmo, meu mundo, o que eu conhecia, dependia muito de mim). 
Em casa haviam muitos problemas e cada um lidava como conseguia, eu assumi características permanentes como um ar de independência que chega a incomodar e dificultou algumas coisas na minha vida. Como não teria essa característica se eu tinha q assumir responsabilidades, se não tinha como contar com outros, para quem justificar? Pai, mãe? Não eram opções. Irmãos mais novos? Eu era a referência...
Frequentar a casa dEle me fez bem e eu até chamava minha família e até que eles foram algumas vezes, mas... o problema do meu pai com álcool me afastou de lá. 
Ele começou a ficar diferente, querendo ser todo certo mas n conseguiu vencer o vício então deixou de frequentar. Na igreja começaram a me perguntar por ele, porque ele não estava indo e até comentando que o haviam visto (eu bem sei o estado que ele estava quando o viam baseando-me pela forma que ele chegava em casa) aí eu parei de ir. Não quero parecer ingrata após ser acolhida mas  sentia-me envergonhada por ele ter chamado tanta atenção e logo saiu, por todos olharem para mim perguntando por ele.
Passei muito tempo sem entrar em uma igreja novamente e das vezes que entrei não me senti bem como antes. Não culpo minha família também, eu não quis mais ir no fim das contas, mas, ali na cozinha ouvindo aquela música enquanto fazia vitamina e chorava me lembrou da igreja e da sensação de estar lá e me senti abraçada a todo instante. Acolhida, consolada em paz. Mesmo que tivesse que voltar correndo para casa ou passar a noite acordada num hospital, imaginando uma diferente, ou lembrando coisas.
O que somos hoje é consequência de uma série de erros e acertos, escolhas, pessoas e situações. 
Como pode me amar, Deus?
Fui para o trabalho pensativa e acho que agora, após escrever, acalmarei um pouco minha mente.

 A música: 

Como pode me amar, Deus?
Conhecendo o meu pecado
Sabendo o que eu faço de errado
Como pode me amar assim?

Como pode me amar, Deus?
Sabendo que eu sou falho
E que o meu coração já não bate
Mais como já bateu?

Como pode me amar, Deus?
Sabendo que eu fugiria
Se a porta estivesse aberta
Como pode em mim confiar?

E ainda me pega quando estou caindo
E me abraça quando estou chorando
E segura as minhas mãos
E me leva pra perto das chamas de amor
Que ardem em Teu coração e não se podem conter

Como uma flecha que estoura em meu peito
E me traz de joelhos enquanto eu choro
Tenha o meu coração
Minh'alma soluça
Quando eu percebo o contato de Seus olhos com os meus

Como pode me amar, Deus?
Sabendo o que eu diria
Sabendo que eu me frustraria
Como pode me amar assim?

Como pode me amar, Deus?
Sabendo que eu Te culparia
Pelo que não foi como eu queria
Como pode me amar assim?

Como pode me amar, Deus?
Sabendo que eu me fecharia
Quando Você quisesse entrar
Como pode em mim confiar?

E ainda me pega quando estou caindo
E me abraça quando estou chorando
E segura as minhas mãos
E me leva pra perto das chamas de amor
Que ardem em Teu coração e não se podem conter

Como uma flecha que estoura em meu peito
E me traz de joelhos enquanto eu choro
Tenha o meu coração
Minh'alma soluça
Quando eu percebo o contato de Seus olhos com os meus

Me leva pra casa
Eu quero voltar
Pois longe de Ti
Não é o meu lugar

Eu corro depressa
Pra Te encontrar
De braços abertos
Como alguém que esqueceu

Me leva pra casa
Eu quero voltar
Pois longe de Ti
Não é o meu lugar

Eu corro depressa
Pra Te encontrar
De braços abertos
Em meu lugar

Me Leva Pra Casa - Israel Subirá

Adulteci?

A palavra é nova, o corretor do google não reconhece mas o significado não é difícil de imaginar. Em essência a maioria das pessoas acima de 20 anos, entende.

Adultecência é uma fase da amadurecência que vem depois da adolescência, compreendeu? Parece nome de doença, mas não é. Adultecer significa acordar já pensando no almoço e já ir tirando algo para descongelar porque o dia vai ser corrido; é sentar para calcular as contas do mês, fazer planilha e planejar a semana; é acordar uma hora mais cedo para escrever um texto como esse e ainda tomar café durante o processo para não se atrasar; adultecer significa que, não importa o quanto você chore, mês que vem as contas chegarão, bonitinhas como sempre.

Eu adulteci? Sim, e foi tão natural que mal me dei conta. Custei a entender que isso chegaria e depois que era real, que almejei isso minha infância inteira e agora uma das minhas metas e ter uma casa ampla e planejada com um jardim e varanda gourmet.

Adultecer é compreender os esforços dos nossos pais, é valorizar as coisas pequenas não pelo valor em si mas pela representação dos nossos esforços. Se orgulhar de um carro velho ou apartamento pequeno? Só entenderão os que sabem quanto custa cada horinha trabalhada num mês.

Mas calma, adultecer não é só labuta, desculpa me expressar assim. Também tem várias partes agradáveis, a maioria na realidade é boa. Liberdade para fazer escolhas de acordo com o quanto você está disposto a se esforçar por aquilo, encontrar paz em uma tarde para hobbies ou em ouvir uma musica boa, cozinhando na sua casinha que tem sua cara. É uma delicia saber que os esforços até aqui lhe proporcionaram momentos assim, de alegria e plenitude, momentos que só lhe resta o sentimento de gratidão à tudo, inclusive aqueles perrengues para ir para a faculdade em dia de chuva e perder o ônibus, ou chorar por uma nota baixa, ou ter que aguentar aquele colega de trabalho chato.

Adultecer é atingir uma maturidade que te permite aproveitar mais a vida, a vida que construiu para si e se alegrar com cada pedaço dessa construção.

Não posso negar que foi e ainda está sendo ralado, tem dia que eu só queria sentar na frente da tv e assistir desenhos, mas não consigo imaginar alcançar o que tenho e ainda quero ter sem essa maturidade que venho conquistando. Na real só consigo agradecer por ter chegado até aqui bem e disposta a continuar em ascensão. Rumo a melhor idade!

(Ó Pai, agradeço por me permitir crescer à tua sombra, de acordo com seus planos que sempre são melhores que os meus [não canso de repetir]. Posso não ser filha mas sou uma criatura muito obediente. Obrigada!)