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quarta-feira, 25 de março de 2026

Tá nas bases

Hoje sai de casa com muitas missões, muitas burocracias a resolver e umas coisas para comprar. Tratei de vestir uma roupa coringa e confortável (aquele macacão verde lindo!), arrumei o cabelo e fiz uma maquiagem bem básica. Olhei no espelho e aprovei o resultado, lembrei da última vez que usei esse macacão e o sorriso sumiu por alguns microssegundos.

Enfim, segui com minhas coisinhas e enfim chegou o momento das compras. Gosto muito da sensação de gastar meu suado dinheiro. Não por simplesmente gastar, mas por ter condições de comprar o que quero/preciso na hora da minha vontade/necessidade. Entrei em uma loja, bem serelepe, com óculos escuros, fone no ouvido ouvindo Metal contra as nuvens, da Legião Urbana e bolsa pendurada até que uma (des)querida confundiu-me com uma funcionária (queria saber onde tinha alguma coisa). Mesmo eu estando de óculos, bolsa e com uma roupa que nada tinha a ver com o uniforme da loja. 

Sabe o nome disso? Racismo estrutural. Não foi a primeira, nem a última. Mais um “caso isolado”.

O racismo estrutural é uma forma de descriminação enraizada na sociedade que normaliza desigualdades raciais através de práticas políticas, econômicas, jurídicas e sociais. Ele funciona como a engrenagem base da organização social, favorecendo um grupo racial e prejudicando outros, sendo um fenômeno coletivo e sistêmico, não apenas individual. Assim disse o Google. Na prática, isso diz que corpos negros são vistos como subservientes com muita naturalidade. A tal mulher provavelmente não pensou antes de perguntar pelo item que buscava no impacto da frase, não pensou em porquê achou que eu, com aquela skin, poderia ser uma funcionaria disponível a servi-la. 

Eu já passei por isso outras vezes, nem teria como contar quantas, mas essa foi a primeira vez que eu respondi. Quando ela perguntou eu estava em movimento e não parei para responder, mas disse "não, estou com bolsa e de óculos, tenho cara de está trabalhando aqui?" não olhei para trás nem esperei resposta, mas espero ter devolvido o desconforto.

Espero que da próxima vez (por que sempre tem a próxima) eu consiga responder melhor. 

Espero que demore mais até a próxima vez.

Espero que meus filhos não passem por isso (ou sejam melhores de resposta do que eu).


"(...) vi meu povo se apavorar
E às vezes eu sinto que nada que eu tente fazer vai mudar
Autoestima é tipo confiança, só se quebra uma vez
Tô juntando os cacos (...)
Sou antigo na arte de nascer das cinza
Tanto quanto um bom motorista é na arte de fazer baliza
Eu tô na arte de fazer"
Corra - Djonga 


Com a fé de quem olha do banco a cena
Do gol que nós mais precisava na trave
A felicidade do branco é plena
A pé, trilha em brasa e barranco, que pena
Se até pra sonhar tem entrave
A felicidade do branco é plena
A felicidade do preto é quase

Olhei no espelho, Ícaro me encarou
Cuidado, não voa tão perto do Sol
Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei
O abutre quer te ver de algema pra dizer: Ó, num falei?!

No fim das conta é tudo Ismália, Ismália
Quis tocar o céu, mas terminou no chão

Ela quis ser chamada de morena
Que isso camufla o abismo entre si e a humanidade plena
A raiva insufla, pensa nesse esquema
A ideia imunda, tudo inunda
A dor profunda é que todo mundo é meu tema
Paisinho de bosta, a mídia gosta
Deixou a falha e quer medalha de quem corre com fratura exposta
Apunhalado pelas costa
Esquartejado pelo imposto imposta
E como analgésico nós posta que
Um dia vai tá nos conforme
Que um diploma é uma alforria
Minha cor não é um uniforme
Hashtags PretoNoTopo, bravo!
80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo
Quem disparou usava farda (mais uma vez)
Quem te acusou, nem lá num tava (banda de espírito de porco)
Porque um corpo preto morto é tipo os hit das parada
Todo mundo vê, mas essa porra não diz nada

Olhei no espelho, Ícaro me encarou
Cuidado, não voa tão perto do Sol
Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei
O abutre quer te ver drogado pra dizer: Ó, num falei?!


No fim das conta é tudo Ismália, Ismália
Quis tocar o céu, mas terminou no chão
Ter pele escura é ser Ismália, Ismália
Quis tocar o céu, mas terminou no chão
(Terminou no chão)

Primeiro, sequestra eles, rouba eles, mente sobre eles
Nega o Deus deles, ofende, separa eles
Se algum sonho ousa correr, cê para ele
E manda eles debater com a bala que vara eles, mano
Infelizmente onde se sente o Sol mais quente
O lacre ainda tá presente só no caixão dos adolescente
Quis ser estrela e virou medalha num boçal
Que coincidentemente tem a cor que matou seu ancestral
Um primeiro salário
Duas fardas policiais
Três no banco traseiro
Da cor dos quatro Racionais
Cinco vida interrompida
Moleques de ouro e bronze
Tiros e tiros e tiros
Os menino levou 111 (Ismália)
Quem disparou usava farda (meu crime é minha cor)
Quem te acusou nem lá num tava (eu sou um não lugar)
É a desunião dos preto, junto à visão sagaz
De quem tem tudo, menos cor, onde a cor importa demais

"Quando Ismália enlouqueceu
Pôs-se na torre a sonhar
Viu uma Lua no céu
Viu outra Lua no mar
No sonho em que se perdeu
Banhou-se toda em luar
Queria subir ao céu
Queria descer ao mar
E, num desvario seu
Na torre, pôs-se a cantar
Estava perto do céu
Estava longe do mar
E, como um anjo
Pendeu as asas para voar 
Queria a Lua do céu
Queria a Lua do mar
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par
Sua alma subiu ao céu
Seu corpo desceu ao mar"

Olhei no espelho, Ícaro me encarou
Cuidado, não voa tão perto do Sol
Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei
O abutre quer te ver no lixo pra dizer: Ó, num falei?!

No fim das conta é tudo Ismália, Ismália
Quis tocar o céu, mas terminou no chão
Ter pele escura é ser Ismália, Ismália


Ismália - Emicida

segunda-feira, 29 de maio de 2017

O bem que vem do outro

Oi, olha como a vida é zueira, te faz sorrir mesmo quando as coisas não estão favoráveis. Ontem eu tava meio bad por causa dos meus olhos aí hoje fui fazer uma visita e a mãe do paciente pediu para tirar uma foto minha para mostrar a netinha o quanto meu cabelo era bonito. Depois do atendimento essa senhora foi me acompanhar até a meu trabalho; no caminho um senhor me parou e disse "moça, deixa eu te pedir um favor, do fundo do meu coração?" Eu pensei que era sobre atendimento ou coisa do tipo, mas aí ele continuou "... Nunca alise seu cabelo, ele é lindo, muito bonito... Você é! Hoje em dia tanta gente com cabelo alisado, tanta gente querendo ter um cabelo assim e não pode...". No trabalho uma das colegas pede para eu trocar de cabelo com ela. 

Coisas da vida, os olhos não estão lá essas coisas mas o cabelo tá numa fase boa.

domingo, 6 de março de 2016

Representatividade, Empoderamento e bem-estar

Semana passada eu estava andando com minha mãe no centro e passamos por duas crianças que me chamaram atenção pela forma que me olharam. Naquele mesmo dia eu havia recebido vários olhares diferentes por causa, do meu cabelo black ou do meu batom roxo, não sei bem. Alguns olhavam com admiração outros com desdém, quem se importa, não é mesmo? Bom, mas voltando às crianças que me chamaram atenção.
Era uma menina que parecia ter uns 11 anos e um menino menor, talvez mais novo. Pareciam ser irmãos, O menino olhou para mim rapidamente e depois voltou o olhar, só que dessa vez com surpresa e algo a mais nos olhos que estavam 3 vezes mais abertos que da primeira vez. Ele puxou o braço da irmã e  tentou apontar em minha direção discretamente, sem sucesso, como se tentasse lembrar de uma palavra. Ela disse sem rodeios, "é black power!" e ele repetiu a palavra como e a saboreasse "black pooower... que legal!"
Eram duas crianças, com uniforme de escola pública e negras. Eu fiquei tão feliz com essa situação que comentei com minha mãe e ela respondeu "eles apontaram pro seu cabelo e você acha isso bonito?". é claro que eu acho! Sabe quantas influências negras ou que usem cabelo afro tem por ai? As crianças praticamente não têm personagem que as represente, que elas se identifiquem e assim, acabam achando que sua cor, seu cabelo é feio e que precisam mudar para serem aceitas nos grupos ou no mercado de trabalho posteriormente. 
Eu mesma não me identificava com as princesas da Disney. Gostava da Jasmine, do Aladdin, porque ela era o que mais se aproximava do que eu era, mas nunca tive uma boneca dela. Ou de alguma negrinha crespa. Meus bebês eram brancos de olhos azuis e cabelos loirinhos, loirinhos. É por essas e outras que sim, sim eu fico feliz que aquelas crianças olharam apontando pro meu cabelo. Acho que ali elas sentiram uma espécie de empatia, representatividade ou quem sabe, uma admiração por um cabelo semelhante ao delas, que todos dizem que é feio e que precisa ser alisado ou preso.
Re-pre-sen-ta-ti-vi-da-de, palavra grande, né? Tudo bem, combina com seu significado. Poder causar essa sensação em alguém é incrível, é uma forma de ajudar no empoderamento e empoderar é coisa séria. E se eu puder fazer isso apenas sendo quem sou e assumindo minhas características, mundo, se prepara porque eu não vou parar!

*******

Dia desses sai apressada para resolver umas coisas. Ao chegar na parada, que estava relativamente cheia vi várias pessoas se espremendo querendo uma sombrinha para esperar seus ônibus. Tinha um cara de camisa preta, calça jeans, óculos escuro e adivinha, black power. O dele era bem maior que o meu. Mesmo estando lotada, não tinha ninguém do lado do cara. Fiquei me perguntando se era coincidência ou preconceito mesmo, sei lá, vai saber. Eu sentei do lado dele e esperei meu ônibus.
Ele pegou o mesmo ônibus que eu e desceu na mesma parada também. Ele estava no assento à minha frente então pude observar as pessoas olhando para ele, mas principalmente as manias que ele tinha com o cabelo. Notei que eu também tenho a maioria deles. Fiquei pensando "Então todos agem assim? hahaha pensei que eu fosse exclusiva!", ao mesmo tempo fiquei feliz por ver que não estou só e a cada dia que passa vejo mais e mais gente feliz com sua essência, aceitando seus cabelos e características tais como são. :)  
Claro,  somos mais que só cabelo, mas esse é um passo.

*******

Ano passado, estava voltando do estágio com uma amiga, comentando sobre planos, viagens e outras amenidades e no caminho passaram por mim uma negra com traças e mais a frente uma outra com dreads curtos. Notei que quando elas me viram sustentaram o olhar no meu cabelo, na época longos cachos, perguntei se minha amiga tinha visto e ela negou, mas eu fiquei pensando nisso e passei a observar melhor. Com o passar das semanas notei que isso sempre acontecia quando alguém com cabelo afro passava por mim: sustentávamos o olhar com um suave sorriso ali. Era como se naquele olhar disséssemos um para o outro "Você é lind@", "Seu cabelo é lindo, não acredite em que diz que ele não é", "Parabéns por manter sua essência!". É algo nosso e até hoje se mantem, cada vez mais evidente para mim, o que enche meu peito de alegria.

Negros, negras, resistam aos padrões que nos excluem, somos todos lindos cada um a sua maneira. Resistam. Vamos viver e mostrar para todos a delícia que é ser negr@!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

And I'm feeling good

A viagem, assim como foi para chegar aqui, será longa até chegar em casa. Tem gente que odeia viagens longas, pelo cansaço e desconforto que causam, pela possibilidade de dividir poltronas com desconhecidos... essas coisas. Viajar é sair da nossa zona de conforto e eu costumo gostar. Me dá a possibilidade de passar um bom tempo comigo mesma, sem o peso na consciência gritando que eu deveria está fazendo algo produtivo; ali não há muito o que fazer além de ler, ouvir música, pensar ou dormir. 

E eu faço tudo isso.
Consegui sentar numa janela e por um milagre não há ninguém ao meu lado, então posso me esticar para ficar mais a vontade nas duas poltronas. O ônibus também é bom, as poltronas são confortáveis e há ar condicionado. Serão boas 6 horas até chegar em casa. 
Ligo os celular tocando as músicas no modo aleatório e me divirto ouvindo músicas que há muito não ouvia. Músicas suaves, dançantes, rocks, sambas e até mesmo as internacionais que eu geralmente evito por gostar de cantar mas não saber - mantenho-as no celular pelos ritmos que me fascinam. Fico feliz por ter tanta memória, quase toda ocupada por músicas. 
Entre as letras, melodias e arranjos viajo nas paisagens e em pensamentos. Nunca havia viajado por esses lados e chega a ser estranho constatar que meu pequeno estado é na verdade tão grande assim. Passo por rios, pontes, cidades e entre uma parada e outra esculto sotaques diferentes. Como deixamos de conhecer nossas origens, não é mesmo? Há ainda tantas cidades aqui que eu se quer sei o nome! Passando por esses interiores acabo passeando um pouco em meu interior também. Olhando por essa janela vejo como as coisas estão mudando, como tenho crescido e sonhado. Penso na prova que fiz no dia interior, na importância que ela teria para o início da minha carreira e em como fui mal. Penso no plano B, plano C e em como as coisas estão acontecendo rápido em 2016. O ano começou tão diferente, tão cheio de metas e mudanças internas que acabam refletindo em mudanças externas, como meu corte de cabelo, por exemplo. 
Em dezembro cortei cerca de 2/3 do meu cabelo. Aquele cabelão que sonhei ter por tanto tempo já não combinava comigo, acho que mudei durante o processo de crescimento, devo ter crescido de outras formas também. O cabelo carregava alguns pesos que eu queria me livrar então optei pelo ato mais rápido e impactante: tesoura nele. Obviamente foi um susto para os outros, mas eu já me via diferente no espelho, nos textos e gestos e ter uma imagem que combinasse com a pessoa que vejo refletida, aqui mesmo nessa janela, era algo que eu precisava. E foi bom, me sinto tão eu agora, tão cheia de mim!
Como que atendendo a um pedido que eu nem tinha feito, meu celular enche meus ouvidos com a voz do Machael Dublé ("Birds flying high you know how I feel, Sun in the sky you know how I feel, Breeze driftin' on by you know how I feel") cantando a música Feeling good, da grande artista Nina Simone. Cada vez que esse jazz sobe, os metais tocando alto, a voz potente, meu coração bate feliz e o arrepio é inevitável. A letra me toca por exatamente por interpretar o que eu estou sentindo, And I'm feeling good.
Não me controlo e danço desajeitada, ali mesmo, em minha poltrona na janela, do lado do sol e com a cortina aberta.  Fecho os olhos e sinto os raios de sol (o sol que me faltava), a música balança meu corpo de uma forma que não consigo evitar (nem quero, nem tento), o sorriso vem e eu canto. Balançando a cabeça no ritmo da música e tentando não encher demais os pulmões para não gritar. Paro de pensar e me permito apenas sentir. And I'm feeling good.

It's a new dawn
It's a new day
It's a new life
For me
And I'm feeling good

("É um novo amanhecer, é um novo dia, é uma nova vida para mim, e estou me sentindo bem")


domingo, 15 de novembro de 2015

Liberdade, igualdade, fraternidade

Hoje acordei com uma sensação estranha. Não sei explicar bem como era, mas havia medo de perda, um medo muito forte, o sangue esfriou e senti algo esquisito em todas as minhas terminações nervosas. Ligo a televisão e encontro notícias absurdas, já a internet é mais explicita ainda e me mostra imagens que eu jamais gostaria de ver na minha vida. Rio tomado por lama, caos instalado em ruas, índios queimados, intolerâncias das mais diversas, fugas pela vida, armas nas mãos... vidas marcadas e destruídas. 
Isso me aflige tanto! Fico imaginando em quão absurdo a falta de amor ao próximo tem espalhado pelo mundo. Somos armas, tecnologia de ponta autodestrutiva, suicidas. A humanidade ao longo dos anos mostra cada vez mais que não precisamos de profecias, ETs, desastres naturais para o fim da nossa espécie, nós mesmo somos capazes de fazer isso. As vezes me irrito com a preocupação excessiva dos meus pais, mas em momentos de reflexão como esse percebo que isso tudo é um medo real, um reflexo causado pelas notícias com que nos bombardeiam diariamente. Há medo e sair e ser assaltada, estuprada, há medo do preconceito, há medo da morte. Isso tudo é real e impossível fingir que não é conosco. Pelo egoísmo a humanidade é capaz de matar friamente pessoas (sem se quer saber quem são ou suas histórias) apenas por estarem e determinado lugar ou terem um cultura diferente. Pela intolerância a humanidade é capaz de apedrejar, torturar e matar uma dezena ou milhares de pessoas apenas por não pensarem da mesma forma, ou deixar uma cidade inteira sem água para favorecer negócios particulares. 
Eu, que sempre considerei o lema francês como o mais fantástico do mundo, fico me perguntando onde foi que a humanidade se perdeu, quando foi que ela desenvolveu essa maldade tão... tão... não consigo encontrar uma palavra adequada para o que é isso. Mas ai eu se surpreendo com a resposta que me veio em seguida: desde sempre. Desde que o mundo é mundo a humanidade é o que é. Até mesmo a Bíblia mostra isso ao relatar a história de Caim e Abel, um irmão que mata o outro por ciúmes, o primeiro homicídio da nossa humanidade e depois disso não parou por ai. Depois disso vimos guerras por poder, poses através de mentiras, roubo de pobres para tornar uma minoria mais rica. 
Em dias como este sinto-me mal por ser parte dessa humanidade, tão triste que me cresce a certeza que não quero ter filhos. O sonho de (quase) toda mulher é ser mãe, eu já tive esse sonho também, ver a junção de partes do homem que amarei e minhas em um só ser, traços meus e dele em um serzinho que eu geraria em meu ventre mas, há alguns anos comecei a refletir mais sobre as notícias que leio e vejo. As pessoas parecem amortecidas com tudo isso e parecem achar normal, mas eu não acho, e digo mais: Não acho justo gerar uma criança e apresentar-lhe um mundo que ela não possa apreciar. Não quero que uma parte de minha já nasça com a sensação de medo e insegurança, que não possa confiar nos colegas de escola, que não possa brincar na praia devido ao risco de sequestro ou ataque de tubarão. Medo, medo, medo. Não quero entregar uma parte de mim para esse mundo tão caótico e cheio de ódio, egoísmo e maldade. Eu já amo demais esse pequeno ser para condená-lo à uma vida tão restrita.
Toda a lamentação que possamos sentir não seria suficiente, jamais conseguirei expressar o que sinto com toda a devastação que, infelizmente, somos capazes de causar. Nos destruímos, destruímos nossa terra, os animais e já não há valores suficientes para nos redimir. Não há respeito pela vida nem lágrimas suficientes para chorar tantas dores e tragédias protagonizadas por nós, e dói muito admitir isso, 
Liberté, Egalité, Fraternité.
Liberdade, Igualdade, Fraternidade, esse foi o lema da Revolução Francesa. O mundo precisa entender a significância dessas três palavras. Cada um deve ser livre para ser o que quiser e pensar como quiser; toda e qualquer pessoa deve ser respeitada por suas ações e escolhas, desde que isso não machuque ninguém; todos devemos nos respeitar como irmãos e não fazer nada mais, nada menos que o que gostaríamos para nós mesmo.
Não é porque o ataque terrorista à França me chocou que eu sinto menos pelo Rio Doce, ou pelas pessoas que morrem diariamente vitimas da violência, pelos refugiados da Síria espalhados pelo mundo ou pelos que passam fome. Isso tudo se acumula em mim em uma mistura de impotência, dor e raiva. Acontece que dói mais por ser algo muito direto. Pessoas de carne e osso levantando armas e bombas para matar outras pessoa de carne e osso. Pessoas que olham diretamente o sangue de outra pessoa abandonar seus vasos sanguíneos e espalharem-se em paredes e calçadas, líquido este tão vermelho quanto o sangue do atirador. Isso me choca profundamente, nem falo só da França, falo também dos mortos pelo tráfico, pelo descaso com saúde, pelas mortes gratuitas. Não adianta mudar sua foto do facebook, isso não é solidariedade. Solidariedade a fazer realmente algo a respeito.
Já não tenho esperanças que o mundo possa ser um lugar melhor, mas fazer o bem ao próximo é uma forma de ser melhor. Diariamente tento expandir meus valores, ser melhor e me cercar de gente assim. Gente que ame, que sorria e faça sorrir, gente que ainda sente inquietude quando ver absurdos, gente que faz sua parte para viver numa sociedade melhor. Eu sei que é um trabalho de formiguinha mas precisamos começar de algum lugar. Mudar a nós mesmos, mudar nosso bairro, a cidade. Não sei quando, mas um dia, talvez um dia, essas mudanças positivas possam nos tornar seres um pouco menos humanos. Quem sabe temos a sorte de ser um pouco como alguns animais, tipo os cachorros. Poderíamos aprender muito sobre o amor genuíno com eles.

Faço de mim
Casa de sentimentos bons
Onde a má fé não faz morada
E a maldade não se cria

Me cerco de boas intencões
E amigos de nobres corações
Que sopram e abrem portões
Com chave que não se copia

Observo a mim mesmo em silêncio
Porque é nele onde mais e melhor se diz
Me ensino a ser mais tolerante, não julgar ninguém
E com isso ser mais feliz

Sendo aquele que sempre traz amor
Sendo aquele que sempre traz sorrisos
E permanecendo tranquilo aonde for
Paciente, confiante, intuitivo

Faço de mim
Parte do segredo do universo
Junto à todas as outras coisas as quais
Admiro e converso

Preencho meu peito com luz
Alimento o corpo e a alma
Percebo que no não-possuir
Encontram-se a paz e a calma

E sigo por aí viajante
Habitante de um lar sem muros
O passado eu deixei nesse instante
E com ele meus planos futuros
Pra seguir

Sendo aquele que sempre traz amor
Sendo aquele que sempre traz sorrisos
E permanecendo tranquilo aonde for
Paciente, confiante, intuitivo



Morada - Forfun


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Black is Power, baby!


Sempre fui uma garota tipicamente negra. Desde a infância curtia meus cachos, me encantava pela história afro e tudo a respeito. (Já era uma nerd ligada em história muito cedo).
Na escola muita gente gostava do meu cabelo, elogiavam, diziam querer um. Outros diziam que era feio, pixaim ou coisas assim, porém nunca me importei muito. Mas eu não entendia muito bem as "molinhas" que eu carregava na cabeça. Queria elas compridas e elas sempre subiam mais e mais. Ai eu conheci a química. Ela fez os cachinhos descerem porém diminuíram também. Não havia volume e isso sempre me incomodava um pouco, mas logo ele voltava (junto com a necessidade do retoque) e foi assim por mais de 10 anos.
Mesmo com os produtos fétidos eu ainda tinha meus cachos. As vezes fazia tranças e me amava com elas, achava que exaltava minha cor, minhas raízes. Nunca os quis lisos, achava sem graça e não combinaria comigo de todo modo. Ainda assim pessoas vinham me perguntar porque eu não alisava de uma vez, que ficaria muito bonita ¬¬
O fato é que há cerca de um ano as coisas começaram a mudar. Fui numa reunião de cacheadas, crespas e afins e isso me abriu os olhos. Elas levaram músicas, textos, suas histórias e a história do povo negro. Isso tudo mexeu comigo. Também comecei a ouvir umas músicas novas para mim: Rap, novos reggaes. Como curiosa assumida que sou, pesquisei mais músicas, mais histórias, fui à Africa, EUA, movimento Black Power nos anos 60. Descobri que essas duas palavras não são só um estilo de cabelo, o cabelo é só uma representação. O movimento mesmo enfatizava o orgulho racial. E depois de tanto ler, tanto ouvir, tanto sentir, cara, que puta orgulho senti!Orgulho por ser quem sou, de trazer em meu DNA uma cultura tão rica!
Conhecer seu cabelo, assumi-lo como ele é significa se entender, compreender de onde veio e para onde pode ir. Sabe, depois que compreendi que meu cabelo pede volume, pede cuidados diferentes, isso me mudou. Ele tem naturalmente estilo e excentricidade, assim como eu. Sou um pouco rebelde, sempre fui meio contra a correnteza, gosto de agir conforme meus pensamentos e odeio que tentem me conter, me controlar. Se eu sou assim como posso querer "domar" meus cachos, "controlar" meu volume? Meu cabelo merece a liberdade e leveza que eu quero para mim. Ele grita para ser livre e tudo que posso fazer e libertá-lo. Libertar dos produtos mágicos, dos grampos e amarras. 
Ter o cabelo natural me fortalece a identidade. Não é só uma moda, é um movimento de compreensão, aceitação e liberdade de dogmas e esteriótipos e tendências da mídia. Empoderamento é a palavra. É gostar de si e parar de lutar contra uma essência. Um ato político, uma forma de enfatizar e fortalecer uma história e cultura cada vez mais esquecida, de um povo que muito fez e quase nada tem. Por mais que você mude, seu cabelo cresce mostrando que faz parte de ti e sempre será.
Nem sempre é fácil. Nem todo mundo entende, até mesmo a família e amigos mas, se você sentir essa necessidade dentro de você, não haverão argumentos que te impeçam de florescer tal como és. Entender que isso é uma forma de crescimento pessoal e evolução da sociedade (que cada vez mais tem pessoas assumindo raízes) é fantástico, é do caralh#! O black é power, bebê!


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Sobre um cara que floresce


Lembro-me que na época em que o download virou febre eu trocava muitas músicas com meus amigos. Entre essas trocas uma amiga me veio com a Banda Eva. Sim, eu já havia ouvido há muito tempo, na época da Ivete, uma vez que meu pai tinha um disco em casa, porém as músicas que ela me indicou eram cantadas por um cara, um tal de Saulo Fernandes. Nunca tinha ouvido falar, mas gostei das músicas. Montei uma playlist com umas onze, doze músicas e ouvi por um tempo. Eram boas mas não me tornei fã.
Depois desse primeiro contato, já esbarrei com a voz de Saulo outras vezes, por indicações de outros e fazendo parte da minha trilha sonora em momentos específicos, mas foi o Baiuno que me aproximou de vez. Esse álbum traz muito mais que música, Traz a essência de Saulo e da Bahia, ou vice-versa, tanto faz. Há beleza branda, simplicidade, pureza, alegria, luz e amor, muito amor. É simplesmente lindo e eu, como fã assumida de música boa brasileira, não pude resistir e me apaixonei logo nos primeiros acordes. Para completar vi alguns vídeos de músicas, shows e entrevistas de Saulo e constatei que ele é um cara especial.
Na maioria das vezes usava roupas largas em tons claros e chinelos. Falando ele mais parecia declamando poesia: baixo, suave, sem pressa e carregado de sotaque. Um cara simples, humilde, mais que tudo isso um cara humano. Não, eu não sou tiete, não sei da história dele, muito menos de todas as música, álbuns e agenda de show. Sei muito pouco na verdade, mas me encanta a leveza dele e principalmente sua sensibilidade. Ele sente muito tudo ao seu redor e consegue filtrar e canalizar sentimentos bons através de sua música. E num mundo como o nosso, sentir é algo tão raro que impressiona. Hoje em dia a grande maioria da população está completamente insensível as dores do próximo e aos absurdos causados pela falta de respeito e amor. 
Saulo mostra, sem querer (ou querendo mesmo), que o mundo tem jeito. Mostra que amar seu povo e suas raízes te fazem entender muito mais de si e do mundo que você está. Mostra que o saber, educação e gentileza fazem diferença e que o bem que você faz sempre volta pra você. O universo realmente presenteou o nosso povo quando nos enviou um cara com tanta alegria, sensibilidade e simplicidade justamente nessa época de novinhas recalcadas, falsetes, menor de idade matando por trocado e político com amnesia absurda.
Nosso país tem sim músicos fantásticos mas conheço poucos caras, com a projeção dele, tão simples. A maioria ou torna-se soberbo por saber que é bom ou que compõe duas ou três músicas de sucesso e já se consideram melhores que Cartola ou Caymmi.
Amo música e sempre que posso procuro saber sobre seus compositores, cantores, a história. O processo que há por trás da criação me encanta tanto quanto ou mais que a composição em si. A essência das pessoas me fascina, acho que já comentei isso aqui. É compreender o lado de dentro.
Ir a um show de Saulo e vê sua luz brilhar de perto, vê ele fazendo aquela mágica de levar amor e leveza através da voz me encantou demais. Repetiu o coro em favor da alegria. Fez florescer sorrisos. Onde ele estiver haverá carnaval.

É um grande orgulho (e alívio) saber que existe pessoas como ele, tão singulares e diversificadas ao mesmo tempo. 
É tempo de se fazer prece ao coração.
Enraizar e emanar o bem. 
Levar luz.
Axé!

Por onde for floresça
Serena que nem água de poço

Risque a palavra feia

E que não falte fé

Converse com o céu

E convença o universo

A girar no seu tempo

Por onde o vento assoviar



Navegue em maré que flui
Como cafuné em silêncio
Ama o sol que é tão bonito
E ainda acredita no mundo



Que o amor é a melhor companhia

E a luz do abraço cresceu o desejo

De eternizar a respiração

Por onde for... será seguro
Estarei com você
E tudo que a gente aprendeu é liberdade
Por onde for... leve seu guia... o coração
Floresça - Saulo

Axé: saudação utilizada para desejar votos de felicidade e boas energias.

sábado, 13 de junho de 2015

Coisa de preto


Hoje acordei com vontade de ser ainda mais negra. Após ouvir uma história africana e ter pesquisado um pouco mais no dia anterior (coisa de curiosa, não consigo me contentar com pouca informação) me vi cheia de sentimento pela mãe de todas as nações.
Ler a respeito das expressões, religião, costumes... Como é rico esse continente! Me enche de orgulho e tristeza. Se por um lado amo tê-lo em minha essência, através dos meus ancestrais, sinto muito por eles terem vindos cheios vigor e traficados, vindos à força para uma terra nova, sendo obrigados a trabalhar, esquecer sua língua, seus costumes e sendo maltratados. Dói imaginar o quanto sofreram, o quanto meu sangue foi derramado e quantas lágrimas ficaram pelo caminho. Dói ver que mesmo após tantos anos a população negra ainda é marginalizada e sofre tanto preconceito e racismo.
Nesse dia saí de casa com meu melhor turbante, com uma amarração diferente, coloquei brincos grandes e um batom vermelho. Nos fones ouvi uma playlist cheia de reggae, rap, samba e soul. Delícia de música. No caminho vi muita gente me olhar como se fosse coisa de outro mundo. Engraçado, um "pano" na cabeça chamar tanta atenção assim. Chega a ser cômico ver que a cultura negra é tão incomum e que elementos europeus ou norte-americanos fazem mais sentido por aqui. 
Que viagem! A umbanda e candomblé serem tratados de forma tão pejorativa por todos, inclusive negros, devido a falta de saber, de conhecimento da própria história, a história do povo que de fato construiu esse país juntamente com os índios.
Acordei orgulhosa de ser quem sou. Feliz pela cor, pelo gingado, pelo cabelo, pela capacidade natural de superação. Coisa de preto (e todo mundo tem).
Quero mais cabelo crespo nas ruas, quero cachos livres das chapinhas, alisamentos e a porra toda. Quero cores, tambores, (capoeira!) riso solto e orgulho das nossas raízes. Quero respeito e expansão da cultura afrodescendente. Resistência. 
Axé!

sábado, 9 de maio de 2015

Cabelo, cabeleira


Há uns dias estive em uma atividade de estágio envolvida com crianças. O trabalho que fomos fazer não importa, mas um fato chamou minha atenção.
Havia crianças de vários tamanhos, cores de pele, cabelos... E todas só se importavam em brincar e aproveitar o banho de mangueira.
Uma das crianças era uma menininha linda, com um nome diferente, olhos um pouco puxados, voz baixa, pele clara e um black power. Sim, ela usava black. (Um retrato perfeito da miscigenação, mostrando que todo brasileiro veio de uma grande mistura.) As crianças aparentemente não se importavam, ela não se importava... Só queriam aproveitar o dia de sol, mas, algumas das pessoas que estavam comigo se importaram e isso me incomodou.
Uma coisa é você não gostar de algo e guardar para si, afinal, não somos obrigados a nada. Mas o que me irritou foram as piadinhas a respeito do cabelo da menina. Porra, qual o problema? Pessoas, no papel de profissionais de saúde, agindo de forma tão, tão... Nem sei como definir tal comportamento. Por causa de pessoas desse tipo que crianças sofrem bullying. Filhos de pessoas assim vêm em casa o comportamento dos pais e o refletem fora de casa. Por causa disso, as crianças deixam de se importar com a diversão e se preocupam com a aparência, em se encaixar, ficar parecidas com os demais e mudam. 
Eu posso está viajando mas para mim isso tudo e muito real. Não é difícil ver meninas por ai alisando o cabelo, mudando sua essência por que "são feias". Elas acham mesmo isso ou foi imposto de alguma forma que aqui é feio, cabelo ruim, pele escura. Ruim porquê? Ruim pra quem?
Eu mesma cresci ouvindo piadinhas por ter um cabelo denominado crespo, rebelde, sem jeito, estressado, nervoso, indisciplinado. Qual é, é um cabelo ou um paciente mental? Apesar de tudo, de todas as criticas, mantive meus cachos, porque sempre gostei de ser diferente mesmo e de desafiar os outros, que olhavam com uma cara estranha, como se eu tivesse um bicho na cabeça. Ah, como me fizeram rir!
Cabelo, pele, características físicas e psicológicas nos fazem ser quem somos e a diferença entre as pessoas é linda e enriquecedora. Imagina que louco seria se todos fossem iguais, um protótipo perfeito e idêntico da pessoa ao lado. Wow, que viagem!
Tudo bem que você não queira ter um black power na cabeça, até porque isso é um presente para as pessoas de estilo e atitude, mas precisa mesmo zoar a menina? Quem é imaturo afinal?



"Fique atento, endo um cabelo tão bom, cheio de cacho em movimento, cheio de armação, emaranhado, crespura e bom comportamento, grito bem alto, sim! Qual foi o idiota que concluiu que meu cabelo é ruim? Qual foi o otário equivocado que decidiu estar errado o meu cabelo enrolado? Ruim pra quê? Ruim pra quem?
Infeliz do povo que não sabe de onde vem. Pequeno é o povo que não se ama, o povo que tem na grandeza da mistura o preto, o índio, o branco, a farra das culturas.
Pobre do povo que, sem estrutura, acaba crendo na loucura de ter que ser outro para ser alguém. Não vem que não tem, com a palavra eu bato, não apanho"


Milionário do Sonho - Emicida