Eu lembro que estava num sonho bom, passeava por um apartamento que mais parecia um hotel, e era meu. Eu estava na presença de pessoas queridas e tinha festa. De repente eu estava num carro bem esquisitinho (como aqueles de palhaço) dirigindo de forma improvável pelas ruas e percebi que tinha liberdade para fazer o que quisesse, como se soubesse que era um sonho. Estava divertidíssimo.
Ao sair do carro entrei num prédio e começava a tocar uma música muito boa, animada e que eu não lembro qual é (mas era algo como Viva la vida de coldplay, com aquele energia crescente sabe?! Ou talvez Everybody wants to rule the world, de Tears for fears, só que mais dançante e rápida) eu entrava dançando, animada, interagindo com todos que apareciam em meu caminho. Era como se fosse a protagonista de um clipe. Lembro de abrir várias portas e cantar e dançar junto com pessoas aleatórias. Na última curva eu lembrava que já tinha vivido a cena que viria a seguir e assim que ela entrou no ambiente, como se fosse mais uma integrante animada e dançante do meu clipe, eu desmoronei.
Ela estava linda, alegre, redondinha, sorridente e dizia que me amava com os olhos. Era minha avó. Eu senti uma dor tão grande que a música parou e eu me pus a chorar, de joelhos. Acordei aos prantos. Meu inconsciente nunca foi tão cruel. Vê-la daquela forma constatou que era um sonho foi triste demais vê-la tão maravilhosa e saber que isso nunca mais acontecerá. O Alzheimer tem a consumido e tudo que vejo nela hoje em dia é um olhar perdido e suplicante.
Minha avó sempre foi enérgica, calorosa, amorosa e agitada. Vovó não parava quieta e queria sempre nos ver bem: vestidos, alimentados, brincantes. Eu amava as comidas que ela preparava, quando estava fazendo faculdade fora que chegava na cidade, era certo ela preparar o frango de panela com macarrão que eu amava e ai de mim se não fosse. Sempre que falava com ela, perguntava: "Fia, alguém já disse que te ama hoje?" eu respondia que não e recebia uma declaração de amor. Amor mútuo. Amor esse que ficou gravado em mim para sempre, tatuado em minha pele, como uma forma e externar nossa troca, para que ela exista não só na minha memória: sempre que explico a frase, espalho o amor da minha avó e isso me faz sorrir.
Sonhar com ela tão feliz e no próprio sonho ter a consciência que era uma lembrança, que ela não era mais aquela pessoa, que está doente, atingiu um grau de tristeza que há um tempo eu não experimentava. Algo profundo, forte.
Escrever esse texto foi sentir tudo de novo e as lágrimas novamente correram por meu rosto. O pior é que ao acordar chorando com o sonho veio também um outro pensamento que me veio no plantão passado. Será que o sonho foi algum tipo de sinal?
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