segunda-feira, 23 de março de 2026

Membro Fantasma

Socorro
Não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir
Socorro
Alguma alma, mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor!
Uma emoção pequena, qualquer coisa!
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Lembrei dessa música do Antunes outro dia, tem quase 30 anos que foi lançada, mas nunca me fez tanto sentido. Eu gostava, ouvia mas só agora eu de fato a sinto. Com tudo que tem acontecido, sinto esta com dificuldade de expressar e perceber sensações e sentimentos. Como se em uma realidade paralela eu estivesse sentido o baque de um término, em outra realidade tenho que me dedicar ao meu novo trabalho, sem perder de vista o trabalho que já tinha antes e me preparar para um concurso muito criterioso. São situações adversas que não se conversam e eu preciso escolher uma para viver. Claro que estou indo na via do trabalho e dos meus projetos, mas sinto está distante de uma parte de mim mesma, que sofre, que não está sendo devidamente acolhida por mim mesma. 
Mas eu não vivo em mundos paralelos. Só me é disponibilizado este mundo, essa vida e essa realidade onde tudo ocorre ao mesmo tempo, sem pausa, sem vírgula e sem horário pro chorinho que se acumula num ritmo de conta-gotas.
É uma sensação estranha, um vazio difícil de explicar. Algo me foi tirado, não, arrancado, de forma brusca, sem anestesia, sem preparação. Lembra-me a síndrome do membro fantasma,, muito relatada por pessoas que sofreram amputação de algum membro. Essas pessoas sentem o membro, dor no local que não mais existe, formigamento. O cérebro continua processando sinais da área ausente, gerando essas sensações reais de dor, queimação e presença, ainda que ausentes.
No meio de tudo isso, a sensação que me dá é que minha cabeça é um grande carrossel, que não para de girar, só que gira cada vez mais rápido pois a alavanca quebrou. Gira, gira, mais rápido, mais rápido. Além da questão emocional, do misto de sensações em aprender e ensinar, das obrigações, existe ainda a burocracia, a parte chata. Papel, banco, decisões palpáveis, e por mais que se diga "pense no que você sente", "no que você quer", eu também tenho que pensar na burocracia que esta sentadinha no meu colo esperando a vez dela de ter minha atenção. E o carrossel não para de girar.

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